10 julho 2005Cogitar (4 cogitações anteriores)Eros e PsiqueEis um mito grego clássico (adoptado pelos romanos como Psique e Cupido) que prendeu a imaginação de muitas pessoas ao longo da História e serviu de inspiração a muitos contos modernos. Psique era a mais nova de três princesas irmãs . As três eram muito belas mas ela era a mais belas das três. A sua beleza era tanta que as pessoas de vários reinos iam admirá-la prestando-lhe homenagens que antes eram de Afrodite. Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou o seu filho Eros para fazê-la apaixonar-se pela criatura mais feia e horrível de toda a terra. Mas Eros ao ver a sua beleza apaixonou-se por ela.
O Rei, pai de Psique, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o Oráculo de Apolo, porque as suas outras filhas já tinham casado e Psique permanecia solteira. O Oráculo ordenou ao rei que a enviasse para o topo da montanha onde casaria com uma terrível serpente. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos. Conformada com seu destino, Psique adormeceu foi levada pela brisa do gentil Zéfiro para um lindo vale.
Quando acordou caminhou por entre as flores até chegar a um palácio magnífico. Notou devia ser a morada de um deus tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Curiosa entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz. Quando anoiteceu foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir.
Adormeceu e a meio da noite uma beijos e carícias acordaram-na ternamente e cobriram-na de carícias. A noite passou e quando acordou o seu marido tinha desaparecido. Essa mesma cena repetiu-se nas noites seguintes. Por várias vezes lhe pediu para a deixar vê-lo mas ele recusava perguntando-lhe se duvidava do seu amor ou se lhe faltava alguma coisa. Disse-lhe que se o visse podia adorá-lo ou odiá-lo e que queria o seu amor como era naquele momento.
Psique concordou mas sentia saudades da sua família. Pediu então ao seu marido para ver os seus pais e as suas irmãs. O seu marido acabou por concordar que as suas irmãs podiam visitá-la. Ordenou então a Zéfiro que as trouxesse. Quando as suas irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, sentiram muita inveja. Notando que o esposo de Psique não as recebera perguntaram-lhe sobre ele. Ela inicialmente mentiu dizendo que era um belo príncipe que passava os dias a caçar. Mas acabou por confessar que nunca o tinha visto.
O seu marido tinha-a alertado que as suas irmãs queriam que ela visse a sua face mas se assim o fizesse ela nunca mais o veria. Além disso ele tinha-lhe contado que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo a criança seria divina mas se ela falhasse ele seria mortal. Ao receber novamente as suas irmãs, Psique contou-lhes que estava grávida e que a sua criança seria divina. As duas ficaram ainda mais enciumadas pois além de todas aquelas riquezas ela era a esposa de um deus. decidiram por isso convencê-la a ver o rosto do marido. Se ele o estava a esconder era porque havia algo de errado: ele realmente deveria ser uma horrível serpente e não o deus maravilhoso que dizia ser.
Assustada com o que suas irmãs lhe disseram escondeu uma faca e uma lâmpada ao pé da cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido. Se ele fosse realmente um monstro terrível matá-lo-ia. À noite, quando Eros dormia ao seu lado, Psique aproximou a lâmpada do seu rosto. Estava à espera do horrível monstro de que falara o Oráculo mas para sua surpresa viu um jovem de extrema beleza. Não era nenhum monstro, era o próprio Eros que dormia ao seu lado. Enfeitiçada por sua beleza admirava o deus alado quando uma gota de azeite quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o. Eros olhou-a e sem dizer uma palavra voou pela janela do quarto. Psique tentou segui-lo mas acabou por cair da janela para o chão. Eros voltou então atrás e disse-lhe:
«Tola Psique! É assim que retribuis o meu amor? Depois de ter desobedecido às ordens da minha mãe e te casado contigo, tu retribuis achando que eu era um monstro e disposta a cortar a minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não te imponho outro castigo para além de te deixar para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.»
Quando Psique se recompôs, notou que o lindo castelo à sua volta desaparecera e que se encontrava num campo próximo da casa das irmãs que, quando souberam do que acontecera, fingiram tristeza pela irmã enquanto escondiam no coração uma grande exultação. Estavam decididadas a serem escolhidas por Eros para substituir a irmã e por isso partiram para o topo da montanha pensando em conquistar o amor do deus. Lá chegadas chamaram o vento Zéfiro para que as sustentasse no ar e as levasse até ao seu amo. Mas Zéfiro desta vez deixou-as cair a meio do vôo e a sua inveja foi recompensada pela morte.
Psique, resolvida a reconquistar Eros, saiu à sua procura por todos os cantos da terra, dia e noite. Pediu ajuda a todos os deuses e Deméteracabou por lhe dizer podia aplacar a ira de Afrodite. Psique devia ir ao templo de Afrodite e prostrar-se perante ela. Mas Afrodite, ao recebê-la no seu templo, não escondeu a sua raiva. Afinal tinha sido por causa daquela reles mortal que o seu filho tinha desobedecido às suas ordens e que agora se encontrava de cama a recuperar da tristeza que ela tinha provocado. Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que Psique deveria realizar, tarefas extremamente difíceis que podiam até causar a sua morte.
Deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército que separou cada uma das qualidades de grão. Afrodite desconfiou que não tinha sido Psique a realizar tamanha tarefa.
Por isso, como segunda tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psique estava disposta a cruzar o rio mas o deus dos rios disse-lhe que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente. Se não fizesse isso ela seria atacada e morta pelos carneiros. Assim Psique esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada. Novamente Afrodite não ficou satisfeita.
Para terceira tarefa teria subir ao topo de uma alta montanha e trazer a Afrodite uma jarra com a água escura que do seu cume. Quando Psique lá chegou encontrou um dragão que guardava a fonte. Mas uma grande águia ajudou-a e encheu a jarra com a água negra. Psique levou então a água a Afrodite.
Furiosa com o sucesso da jovem, Afrodite planeou uma última tarefa. Psique deveria descer ao mundo inferior e pedir a Perséfone que lhe desse um pouco da sua beleza. Desesperada subiu ao topo de uma elevada torre decidida a atirar-se para assim puder alcançar o mundo subterrâneo. A torre porém murmurou-lhe como entrar no reino de Hades através de uma caverna secreta. Ensinou-lhe ainda como ultrapassar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero. Deu-lhe também uma moeda para dar a Caronte como pagamento pela travessia do rio Estige, o rio que leva as almas penadas para o Inferno. Mas avisou-a de que quando Perséfone lhe desse a caixa com a sua beleza Psique não devia olhar para dentro da caixa pois olhos mortais não aguentavam a beleza dos deuses. Seguindo os conselhos da Torre conseguiu chegar até Perséfone e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Porém no caminho de regresso cheia de curiosidade abriu a caixa para ver o que tinha. Mas invés de ver a beleza de Perséfone caiu num profundo sono. Mas Eros, já curado, voou ao socorro de Psique e conseguiu retirar-lhe o sono que a prendia, salvando-a.
Mas uma vez a sua curiosidade tinha-a colocado numa péssima situação mas agora, com a sua ajuda, podia apresentar-se a Afrodite com a tarefa cumprida.
Enquanto isso, Eros foi ao encontro de Zeus e implorou-lhe que apaziguasse a sua mãe Afrodite e ractificasse o seu casamento com Psique. Atendendo ao seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembleia dos deuses e que lhe fosse oferecida uma taça de ambrósia, a bebida dos deuses. Então com toda a cerimónia Eros pode ficar ao lado de Psique e do seu filho, chamado Voluptas (Prazer).
Portanto temos uma história sobre um jovem muito bonita, vítima das invejas familiares, que conhece um jovem por quem se apaixona, que é ajudada por pequenos seres nas suas tarefas, que no final casa com o jovem e é feliz para sempre.
Eis as histórias infantis da Branca de Neve, a Cinderela, a Bela e o Monstro em toda a sua glória clássica...
Para um outro mito clássico com algumas reflexões minhas ver Pandora
Cogitado por Mauro Maia às 17:02
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A imagem não é da estátua de Canova...?
Cogitado por: Lady Nox a julho 11, 2005 04:27 PM
Devo confessar que desconheço o autor desta estátua específica de Eros e Psique. Mas não me parece que esta imagem seja a da estátua de Canova no Museu do Louvre. Se repararmos nas asas do Cupido (Eros) veremos que a estátua representada aqui no blog tem as asas mais curtas e arredondadas do que as do de Canova. O autor, alas, desconheço. Há muitas estátuas semelhantes a esta e por isso é difícil identificar o autor. Canova, no entanto, não parece ser, apesar de eu preferir a sua. Mas a extensão das asas de Eros levou-me a não a incluir como imagem do artigo. São todas semalhentes (as deste tipo específico, com Psique deitada e Eros abraçando-a) mas eu prefiro as asas de Canova.
Cogitado por: Mauro a julho 11, 2005 06:32 PM
Isso é um trabalho meu (NAY).
Cogitado por: Margarete a maio 8, 2009 08:25 PM
A história de Eros e Psique foi, pela primeira vez, contada no século II DC, por Lucius Apuleius. Não sei em que medida dizes que isto é um trabalho teu, limitei-me a descrever esta história com 19 séculos. Muitos são os autores que a contaram e recontaram. Não fui o primeiro, nem foste a primeira e, felizmente, não seremos os únicos.
Cogitado por: Mauro a maio 9, 2009 10:33 AM
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