10 setembro 2005

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Super-populus

Em 1968 o Psicólogo John Calhoun criou uma experiência para estudar o efeito do excesso populacional nos ratos. Para isso colocou, no dia 9 de Julho de 1968, num recinto com aproximadamente 650 centímetros quadrados, 4 ratos do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Água e comida eram regularmente fornecidas e todos os ratos existentes tinham alimentação amplamente disponível. A temperatura era mantida constante e as paredes possuíam inúmeros ninhos artificiais para permitir a procriação.

Nos primeiros 104 dias registou a agitação social decorrente da ambientação dos ratos ao novo ambiente (Fase A).
Ao fim desses 104 dias nasceu a primeira cria e a população aumentou exponencialmente a partir de então, duplicando de tamanho a cada 55 dias (Fase B).
Aquando do 315º dia a população era constituída por 620 ratos e a população diminuiu o ritmo de crescimento para uma duplicação a cada 145 dias (Fase C).

A partir desta Fase C os níveis de violência aumentaram e a estrutura social deteriorou-se:

.:. as fêmeas em período de aleitamento rejeitavam e abandonavam as crias recém-nascidas;
.:. apesar da abundância de comida, os cadáveres das crias eram devorados por outros ratos;
.: uma fêmea adulta era perseguida não por um mas por um grupos de machos que a violavam;
.:. ocorriam graves problemas de obstetrícia e ginecologia (ocorriam frequentes mortes das fêmeas durante e após o parto);

.:. entre os machos registavam-se 4 tipos de personalidade:
~ os dominantes, (altamente agressivos);
~ os homossexuais (insinuavam-se a membros do mesmo sexo ou a fémeas estéreis
e eram atacados pelos dominantes);
~ os passivos (moviam-se por entre a população completamente apáticos);
~ os sondadores (hiperactivos, hipersensuais, bissexuais e canibais);
.:. as interacções sociais tornaram-se de curta duração e os instintos de côrte sexual e parentesco desapareceram;

No 560º a população atingiu os 2 200 ratos, tendo a partir daí decrescido pelas razões acima apontadas levadas ao extremo. Nenhuma cria nascida depois do 600º dia sobrevivia além da infância. O último nascimento registou-se no 920º dia.

A 22 de Junho de 1972 existiam 122 ratos sobreviventes.

Se os seres humanos fossem ratos, esperar-se-ia, nas cidades actuais sobrepovoadas: ~ um aumento de episódios de violência urbana e doméstica;
~ abuso sexual e negligência infantil;
~ aumento da mortalidade de mães e recém-nascidos;
~ violações em grupo;
~ psicoses;
~ aumento da homossexualidade e hipersexualidade;
~ violência para com os homosexuais;
~ alienação e desenraizamento sociais
~ diminuição das aptidões domésticas masculinas e femininas.

Será qualquer semelhança com a realidade mera coincidência?

Esta experiência foi depois realizada por outros investigadores noutras espécies animais:

~ Entre os gatos, regista-se o aumento da violência e assassinato colectivo de indivíduos escolhidos arbitrariamente;
~ na maioria dos animais (primatas incluídos) registam-se, além destas situações, maior susceptibilidade às doenças e diminuição da estatura dos adultos;

~ nos chimpazés (que têm 99,6% de parecenças genéticas com o ser humano) a população torna-se mais assustadiça e ligeiramente mais agressiva. Mas não muito mais. Há medida que a população aumenta os chimpanzés fazem um esforço concertado para manterem a paz. Têm mecanismos naturais e linguísticos que lhes permitem compensar o sobrepovoamento.
As fêmeas têm um papel activo ao acalmar situações de sobre-povoamento.
No estado selvagem os machos copulam com as fêmeas que quiserem e quando quiserem (excepto em casos de incestos mãe/filho).
Mas nas alturas de sobrepovoammento as fêmeas têm o direito (que normalmente exercem) de negar as investidas sexuais dos machos.
O aumento do estatuto social das fêmeas leva, não a maior agressividade (por frustação) dos machos mas a períodos de calma social.
Em situações de agressividade entre os machos procuram apaziguá-los com gestos, removendo muitas vezes das mãos dos antagonistas os objectos que iriam usar na contenda. Mas entre elas os rancores podem chegar a durar anos e a passar para o resto da família e para as gerações seguintes.

Mas os seres humanos não são ratos, nem gatos, nem chimpazés...
Acho no entanto que, como disse o já saudoso Carl Sagan:
As sociedades em que o sector feminino disfruta de igualdade social são também sociedades que beneficiam dos seus dotes político-sociais».

Haja então esperança de que a a igualdade de géneros nas sociedades humanas, iniciada a meio do século passado se aprofunde e que a espécie humana possa vir a gozar de uma pax femina duradoura.

Cogitado por Mauro Maia às 21:50 | Cogitar (1)
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Acredito que num anterior comentário tinha feito uma referência a este estudo. Fico contente por o ver explicado e detalhado. :D Cogitado por: Rui a setembro 15, 2005 11:37 AM