Animal fortissimus

Viviam numa floresta longínqua muitos animais, alguns pequenos outros grandes, alguns fortes outros fracos, alguns bons outros maus;

Nessa floresta vivia uma pequena formiga que era admirada por todos: apesar do seu tamanho era muito veloz e forte. Todos admiravam a força com que a formiga superava pedras maiores do que ela ou subia a árvores maiores do que todos.

E vivia também um elefante que era motivo de pena de muitos e desprezo de outros: o elefante tinha nascido com problemas nas suas pernas direitas. Tinha dificuldade a andar, cada passo era uma tortura, mal conseguia acompanhar até a mais pequena cria nas suas andanças pela floresta. E os outros animais comentavam «É tão grande e forte e tem problemas a andar. Coitado.»

Um dia uma cria de passarinho caiu do alto do seu ninho.
O elefante, assim que viu a cria cair, apressou-se a dar o alarme e encaminhou-se para a salvar. Mas caminhava com tanta dificuldade que, assim que chegou, já a formiga tinha chegado e puxado o passarinho árvore acima até ao ninho.

Quando o elefante finalmente chegou todos os animais davam os parabéns à formiga pela forma rápida com que acorreu e pela facilidade com que puxou a ave até ao ninho.
Ao elefante ninguém dirigiu a palavra nem agradeceu o alarme que deu.
Só pensaram como tinha chegado tão tarde o elefante, tão depois de todos os outros.
A ninguém ocorreu que foi a humilde atenção do elefante que percebeu a aflição da cria.
«Não faz mal, já estou habituado. Felizmente salvou-se a cria, é o que importa.» pensou o elefante.

Os dias passaram. Um dia caminhava a custo o elefante pela margem do rio quando ouviu um pedido de socorro. Era a formiga que se debatia no meio do rio para não se afogar.
O elefante deu o sinal de alarme e dirigiu-se com vagar à água.
Antes de se meter no rio hesitou: as suas pobres pernas, que mal o sustentavam em terra, não conseguiriam fazê-lo nadar. Podia-se afogar se entrasse. Mas vendo a formiga tão aflita decidiu-se e entrou. Com dificuldade deu às pernas, lentamente foi-se afastando da margem, dolorasamente chegou à formiga que se debatia. Com a tromba recolheu-a e penosamente nadou para terra.

Assim que chegou à margem já os animais todos tinham chegado e imediatamente rodearam a formiga. Com grandes gestos todos manifestaram o seu apreço por ela estar bem e comentaram como devia estar forte a corrente, que até a formiga tão forte tinha levado. Ninguém falou ao elefante, ninguém lhe deu os parabéns pelo salvamento.
O elefante, vagarosa e penosamente, afastou-se do local, assim que percebeu que a formiga estava bem. «Não faz mal, já estou habituado. Felizmente salvou-se a formiga, é o que importa.» pensou o elefante.

A sua saída passou despercebida à maioria dos animais.
Mas o velho mocho, que tudo observava do topo de uma árvore próxima, viu mais do que os outros: «Todos comentam como está forte a corrente e a ninguém passou pela cabeça a tremenda força de carácter que levou a que o elefante, com tantas dificuldades a andar, se lançasse à água tumultuosa e salvasse a formiga. Este animal é verdadeiramente o animal mais forte da floresta: apesar das suas debilidades não só faz tudo quanto os outros fazem como é corajoso e coloca a segurança dos outros à sua frente.
A formiga nada supera, limita-se a ser o que já é, nunca supera desafios. Tudo é fácil.
Mas o elefante tudo supera, constantemente é mais do que aquilo que já é, tudo é um desafio que ele vence.
Quem é o verdadeiro forte, quem podendo faz ou quem não podendo consegue?
Eu valorizo mais o segundo.»
Levantou vôo e voou até ao elefante.

Não lhe deu os parabéns, que heróis a sério não precisam.
Mas o seu gesto de afecto, voar até ao elefante e falar com ele, aqueceram-lhe o seu grande coração como nem mil fogueiras conseguiriam.

Desde esse dia o mocho tornou-se o melhor amigo do animal mais forte da floresta.

Cogitado por Mauro Maia às 22:27 | Cogitar (4)
Cogitações anteriores
É tão bom abrir o Cognosco e sempre encontrar uma surpresa! Adoro fábulas e esta história é sábia! Um texto repleto de lições de humanismo, contado por bichos... Beijo Cogitado por: Maria Papoila a outubro 5, 2005 09:54 AM
Ainda bem que apreciates esta pequena fábula. Era algo que já há algum tempo existia em rascunho mental mas que ainda não tinha efectivado. Expressa razoavelmente um ponto de vista que raramente outros sentem: poucos valorizam a força que muitas pessoas com limitações de alguma natureza têm para simplesmente fazer aquilo que outros poderão dar como adquirido. Agradeço a tua visita e comentário. És sempre uma visita bem-vinda ao Cognosco. Cogitado por: Mauro a outubro 5, 2005 12:47 PM
Linda fábula com uma coisa que gosto muito: MORAL. Estas fábulas fazem.me pensar e ser cada dia melhor...independentemente das fábulas, mas estas histórias mexem e fazem pensar. Adorei lê-la, não conhecia.Continuações de tudo bom Cogitado por: Elsita a outubro 6, 2005 12:05 AM
Obrigado Elsa. Não conhecias esta fábula porque ela só passou a existir quando eu a escrevi aqui no Cognosco. É da minha lavra. Fico feliz por teres gostado dela. Como disse num outro comentário, tenta resumir a minha visão sobre este assunto. Os contos que (muito de vez em quando) apresento aqui no Cognosco são da minha autoria. A única excepção (a que eu identifiquei claramente a origem) foi um a que chamei «Sufi-ciente», já que não incluía nome. Se quiseres ver os outros contos que escrevi, procura nas sinopses. Entre Fevereiro e Julho estão alguns. Obrigado pelo apreço, pela visita e pelo comentário. Se fores às sinopses encontras o «Lepus e testudo» em Março, o «Céu e Terra» em Abril, o «Amo ergo liberto» em Junho e «A flor que chorava de amor» em Julho. Por vezes há também poemas meus. Espero que os aprecies também. Cogitado por: Mauro a outubro 6, 2005 12:22 AM