09 outubro 2005Cogitar (15 cogitações anteriores)Unus uir septem feminae Costuma ouvir-se repetir esta frase:
«Há sete mulheres para cada homem.»
É uma afirmação que se repete porque se costuma ouvir (e porque a vontade que seja verdade é grande por parte da metade masculina) mas que nunca é apresentada apoiada em factos, em estatísticas, em estudos.
Devo dizer que, tendo em conta a forma como o mundo anda, sempre duvidei dela.
Convenhamos que nós homens somos péssimos a gerir o nosso ambiente.
Coloquem um bando de homens (por exemplo 6 estudantes) numa casa e verão, em primeira mão, a aplicação da Segunda Lei da Termodinâmica:
«Num sistema fechado a entropia, ou seja o caos, só pode aumentar»
Se o mundo anda como anda não é por excesso de mulheres, será por igualdade ou defeito do seu número (especialmente nos locais de decisão).
Como já foi referido, em Super populus, a presença do sexo feminino puderá ser o garante de um mundo mais justo. Olhando em volta, percebe-se que não há suficiente.
(E não esquecer também a origem feminina da inteligência humana, ver Ecce femina)
![]() Mas o que se quer são factos concretos, números. Repete-se que há 7 mulheres para cada homem. Onde estão as estatísticas? Como se faz uma afirmação destas sem bases concretas?
Uma das organizações a que se pode recorrer para obter um resposta fidedigna é a ONU, mais especificamente o seu Departamento de Assuntos Económicos e Sociais. Obtive então os seguintes números, respeitantes ao número de mulheres por cada homem entre 1950 e 2005 e ainda as previsões até 2050.
1950 ~ 99,6 Homens por 100 Mulheres (1,004 Mulheres para cada Homem)
1955 ~ 99,7 H - 100 M (1,003 M/H)
1960 ~ 100 H - 100 M (1 M/H)
1965 ~ 100,3 H - 100 M (0,997 M/H)
1970 ~ 100,6 - 100 M ( 0,994 M/H)
1975 ~ 101 H - 100 M (0,991 M/H)
1980 ~ 101,2 H - 100 M (0,998 M/H)
1985 ~ 101,2 H - 100 M (0,998 M/H)
1990 ~ 101,4 H - 100 M (0,9862 M/H)
1995 ~ 101,4 H - 100 M (0,9862 M/H)
2000 ~ 101,2 H - 100 M (0,998 M/H)
2005 ~ 101 H - 100 M (0,991 M/H)
2006 ~ 101 H - 100 M (0,991 M/H) (6 551 029 000 = 3 258 870 900M + 3291494,8H)
2010 ~ 100,9 M - 100 H (0,991 M/H)
2015 ~ 100,8 M - 100 H (0,992 M/H)
2020 ~ 100,6 - 100 M ( 0,994 M/H)
2025 ~ 100,4 - 100 M (0,996 M/H)
2030 ~ 100,2 - 100 M (0,998 M/H)
2035 ~ 99,9 - 100 M (1,001 M/H)
2040 ~ 99,7 - 100 M (1,003 M/H)
2045 ~ 99,5 - 100 M (1,005 M/H)
2050 ~ 99,7 - 100 M (1,003 M/H)
Estamos em 2005. O número de mulheres para cada homem é de 0,991.
(Já em 2006, o número de mulheres por cada homem foi 1,067)
Não há sequer uma mulher para cada homem.
Neste momento há cerca de 6 mil milhões, 464 milhões e 750 mil pessoas no mundo.
Destas 3 mil milhões, 248 milhões e 919 mil são homens.
3 mil milhões, 215 milhões e 831 mil são mulheres.
É uma diferença de mais 33 milhões e 88 mil homens do que mulheres.
Uma diferença pequena (1,03%) mas que pende para o lado masculino.
Por onde andam as anunciadas sete mulheres para cada homem?
Este mito urbano (e no Cognosco tem-se falado nos últimos artigos de vários) parece claramente inspirado na influência árabe na civilização ocidental.
(Apesar de os árabes não terem conquistado a Europa como um todo influenciaram-na largamente. Basta recordar que a maioria dos textos clássicos gregos e romanos foram por eles preservados ou que usamos os números por eles trazidos da Índia).
Segundo o Al-Corão, quando um homem vai para o céu tem, à sua disposição, 7 virgens que o servem para toda a eternidade (uma pessoa pergunta-se «e para uma mulher que vá para o céu quais são as recompensas?» Não tenho conhecimento de haja referências no Corão às recompensas celestiais para uma mulher que vá para o céu...)
7 virgens para um homem - 7 mulheres para cada homem.
Pode ser coincidência mas...
Certo é que é falso que assim seja. Aliás, biologicamente seria improvável que assim fosse. Para umas breves pinceladas sobre a genética humana lembremos que dos 23 pares de cromossomas (46 cromossomas no total) que existem em cada célula humana 1 par é o sexual, os outros 22 são os somáticos.
Os somáticos determinam a constituição de todo o corpo. O sexual determina o sexo do indivíduo (bem como algumas doenças que são transmitidas pelas mães para os filhos masculinos, por exemplo).
Facilmente se constata que o cromossoma X é maior do que o Y.Quando os espermatozóides são formados, os pares de cromossomas são divididos e cada espermatozóide fica com o X ou com o Y (este divisão é necessária para que a união de um óvulo, que tem apenas um X, e um espermatozóide resulte numa célula com os 23 pares). Isto significa que os espermatozóides que carregam o X levam um maior peso do que os que levam o Y. A diferença é pequena mas, para a escala dos espermatozóides, pode influenciar. Os com Y são ligeiramente mais rápidos. Em termos estatísticos isso significa que há uma ligeira maior quantidade de espermatozóides com Y a chegar ao óvulo (que tem sempre X). Resulta então um ligeiro maior número de óvulos fecundados XY do que óvulos com XX. Por isso nascem ligeiramente mais homens do que mulheres, o que facilmente se constata nas estatísticas da ONU.
Por curiosidade estes são os números para Portugal no mesmo período:
1950 92,7 Homens por 100 Mulheres (1,0787 mulheres para cada homem)
1955 92,7 (1,0787 M/H)
1960 91,8 (1,0893 M/H)
1965 91,2 (1,0965 M/H)
1970 90,2 (1,1086 M/H)
1975 89,7 (1,1115 M/H)
1980 93,7 (1,0672 M/H)
1985 93,3 (1,0718 M/H)
1990 93,1 (1,0741 M/H)
1995 93 (1,0753 M/H)
2000 93,2 (1,0730 M/H)
2005 93,5 (1,0605 M/H)
2006 93,6 (1,067 M/H)
2010 93,9 (1,0650 M/H)
2015 94,1 (1,0627 M/H)
2020 94,4 (1,0593 M/H)
2025 94,7 (1,0560 M/H)
2030 94,9 (1,0537 M/H)
2035 95 (1,0526 M/H)
2040 95,2 (1,0504 M/H)
2045 95,3 (1,0493 M/H)
2050 95,4 (1,0498 M/H)
Também em Portugal a frase não tem qualquer sentido e é repetida por ignorância e falta de vontade de falar verdade e certeza. É o mal do mundo, parece...
No título «Um homem sete mulheres»
Cogitado por Mauro Maia às 19:13
| Cogitar (15) Cogitações anteriores
Mas nesse caso, essas contas não parecem suportar o mito urbano de que existe a pessoa certa para cada um de nós? Será que existe? Quem será ela? Que avançadas fórmulas matemáticas podemos usar para a encontrar? Ou será também isso um mito urbano? P.S.: que gracinha, a parte dos seis estudantes numa casa. ;)
Cogitado por: Rui a outubro 10, 2005 12:44 PM
Pensei que apreciarias a briosa referência... ;)
Quanto à alma gémea não sei. Matematicamente não vejo como demonstrar a sua existência. Considera é o seguinte: há sensivelmente tantos homens como mulheres. E no entanto há homens com mais de uma esposa (mormons, ...). Quem sabe se a tua alma gémea não é uma dessas?
Cogitado por: Mauro a outubro 10, 2005 02:48 PM
Até onde eu sei o número de homens que nasce é superior ao número de mulheres. O problema é que a mortalidade masculina é superior à feminina por este motivo diz-se que há um homem para 7 mulheres (contudo é algo exagerado)!
Cogitado por: rita a outubro 10, 2005 09:34 PM
Obrigado, «Rita», pela visita e pelo comentário. Entendo a tua observação, Rita. É um facto que a taxa de mortalidade masculina é superior à masculina (a esperança média de vida à nascença no mundo é de aproximadamente 62 anos para o meu sexo e de aproximadamente 66 para o sexo feminino). Este facto (para o qual há a teoria de que a testosterona é em si mesma prejudicial ao organismo e limita a nossa esperança de vida) puderia equilibrar a taxa ligeiramente superior de nascimentos (desconheço a percentagem do desiquilíbrio). Mas o cerne do artigo é a quantidade efectivamente existente dos dois sexos, de qualquer idade, em qualquer ano de 1950 a 2050. Não há, nesse intervalo de 100 anos, nenhum instante em que a razão entre o número de mulheres e de homens sequer se aproxime de 2, sequer de 1,5, sequer de 1,2. O «7 mulheres para um homem» é mais do que um exagero, é um mito urbano que urge combater com as armas da estatística.
Cogitado por: Mauro a outubro 10, 2005 10:25 PM
Olá. A tua resposta já está no meu blog no post 7 maravilhas do mundo. *
Cogitado por: rita a outubro 11, 2005 12:54 AM
Resposta também das Autarquicas. Bem, é claro que é um exagero mas dificilmente se vai conseguir terminar com este mito...
Cogitado por: rita a outubro 11, 2005 01:00 AM
Adorei simplesmente o teu post! 5*. De facto as estatísticas referem um número muito, mas muito reduzido em relação ao que o "povo" diz, salvo erro, apenas nascem 2 mulheres em porporção a 1 homem...enfim...não irei divagar, porque ficaria a perder em qualidade de informação em termos comparativos com o teu post, não teria essa pretenção: jamais. Quanto ao comentário deixado no meu pnúltimo post, eu ri imenso, com ele, Obrigada e aprendi, tambem. Tudo de bom para ti.
Cogitado por: Elsita a outubro 11, 2005 01:55 PM
Este blog trata realmente os assuntos de forma científica. Grande aula de Demografia. É verdade realmente nascem mais homens que mulheres e também é verdade que a esperança média de vida ao nascer é menor,com a tal diferença de 4 anos apontada. É também verdade que quer homens quer mulheres sobrevivem mais com companhia, e que os homens sobrevivem com mais dificuldade quando viúvos. Há pois alguns autores de países do Norte da Europa, com menor influência dos árabes que consideram acertada o homem escolher para sua companheira uma mulher ligeiramente mais velha...Leste algo sobre isto, Mestre?
Cogitado por: Maria Papoila a outubro 11, 2005 06:15 PM
Obrigado, «Rita», por teres vindo. Só conheço uma maneira de destruir mitos: destapar-lhe os pés de barro. É o que procurei fazer. Mais uma vez é um prazer receber-te aqui, «Elsita». É que nem a 2, nem a 1,5 sequer o número chega. Os números são muito equilibrados (a proporção é sempre ligeiramente acima ou abaixo de 1), havendo alturas em que a desproporção tende para o lado masculino outras para o feminino. Preocupantes são as práticas que ainda ocorrem nos países mais populosos do mundo (China e Índia) de se fazerem ecografias paa determinar o sexo dos fetos e abortar os femininos (por causa do dote, entre outras razões). Esperemos que, por lá, se confinem e que até lá diminuam. Até pelo desenvolvimento dos 2 países: está mostrado que países que possuem maiores igualdades entre os sexos gozam de maior prosperidade e desenvolvimento. Obrigado pelas palavras, «Maria Papoila». Desconhecia de facto o conselho de alguns autores de que a escolha de parceira deveria recair sobre uma mulher ligeiramente mais velha (4 anos, talvez, para equilibrar as esperanças de vida?) Desconhecia o conselho mas serei o primeiro a advogá-lo. Seguramente o mestre não serei eu. Passo a vida a combater a minha ignorância...
Cogitado por: Mauro a outubro 11, 2005 09:46 PM
Há muito que procurava estes números! Agora já estou mais descansada... Mesmo assim há uma questão que me continua a preocupar, a população gay está a tornar se "uma ameaça" para qualquer mulher que se interesse por homens. Se essa situação se continua a propagar, qualquer dia,não somos sete, somos vinte e sete!
Cogitado por: Madalena a fevereiro 24, 2006 03:21 PM
Entendo a tua preocupação. Mas, numa perspectiva algo egoísta, é a fantasia da maioria dos homens: 27 mulheres para um só homem... Obrigado por cá teres vindo, «Madalena», e ainda bem que o Cognosco te pôde ajudar a obter estes números.
Cogitado por: Mauro a fevereiro 24, 2006 06:51 PM
Lembrem-se que também há muitas mulheres lésbicas, penso que são até mais do que homens!
Cogitado por: Rui a fevereiro 26, 2007 05:54 PM
Ao contrário, «Rui», das estatísticas da ONU sobre o número de Homens e Mulheres no Mundo, o número de homossexuais masculinos e o número de homossexuais femininas é um ponto de interrogação, de tal forma que se pode perguntar legitimamente se o seu número está a aumentar de facto ou se simplesmente se tornaram mais visíveis, permanecendo o seu número semelhante...
Cogitado por: Mauro a fevereiro 26, 2007 06:04 PM
http://nrg1400.livejournal.com/132947.html Olá! Tropecei neste post, li na diagonal e "relembro" o que é mais ou menos óbvio: simplestemente tornamo-nos mais visíveis. haja mais abertura de ideias, mais tolerância, mais direito à diferença! Quem quer ficar com as minhas sete? =p DN
Cogitado por: DN a agosto 14, 2007 06:34 PM
Obrigado, «DN», pela referência ao Cognosco. É deveras interessante a discrepância entre a realidade e muitas das «verdades» populares que por aí circulam. As diferenças numéricas entre os sexos é um deles. O sucesso e futuro progresso da Humanidade passará pela aceitação das diferenças entre as pessoas: que quem queira possa sair do armário e viver a sua identidade. Todos beneficiam com isso. Eu, por exemplo, não me importo nada em ficar com o teu excesso heptário feminino. Agradeço-te a visita e a referência.
Cogitado por: Mauro a agosto 14, 2007 08:20 PM
|