25 outubro 2005Cogitar (16 cogitações anteriores)Duplex negatioUsa-se correntemente expressões como estas: «Não vi nada», «Não vi ninguém». Costumava pensar que esta situação se devia à crónica iletracia matemática portuguesa. Numa gramática latina que por acaso tinha à mão, procurando no índice, eis que me surge a construção gramatical «dupla negativa». Continha alguns exemplos do uso da dupla negativa em Latim. Referiam ainda como a posição da partícula non na frase afectava o significado e poder ter assim dois significados (ambos graus diferentes de afirmação). Assim, a frase Como se passou de «uma dupla negativa reforça a afirmativa» para Suspeito, no entanto, de uma possível origem. Na altura em que o Latim era a língua mais viva da Europa, havia duas classes de Latim, uma para cada classe dentro da sociedade romana. Quem falava o Alto Latim preocupava-se com a forma como se expressava, com a preservação da correcta construção gramatical e pelo adequado uso semântico. Tenho verdadeiramente pena que a evolução das línguas siga o sentido da sobre-simplificação, por tal destruir formas gramaticais e semânticas de claro valor estético e lógico. Para quem já tenha entrado em contacto com o Grego clássico e o compare com o moderno, ou quem tenha visto o Latim e o compare com as línguas românicas actuais não pode deixar de notar a maior pobreza das últimas. Mas não posso deixar de sentir pena pela evolução da linguagem humana tender para a simplificação e não para a complexidade, tender para o empobrecimento e não para o enriquecimento. O uso da dupla negativa em Português é evitável facilmente («Não vi coisa alguma», «Nada fiz», «Não fiz coisa alguma», «Nada sei», «Sei coisa nenhuma»,...), pelo que eu faço o esforço consciente de banir o seu uso no meu discurso oral e escrito. Por vezes falho (tal é a força do hábito) mas faço por banir. Mas é difícil de sustentar essa luta perante a avalanche do seu uso quotidiano em Portugal. A inconsciência dos processos lógicos da estruturação do pensamento humano pode conduzir a aparentes paradoxos, fruto apenas da incorrecta utilização da lógica: Assim se vai no caminho da Lógica na Europa latina, a Lógica que moldou o espírito humano, seguindo a sua dupla progenitora, a Matemática, que moldou o Universo e a Lógica. (Como visto em Omnia factus mathematica). No título «A dupla negativa» Cogitado por Mauro Maia às 20:09
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há uns anos atrás surgiu essa questão num site, o Ciberdúvidas. Não é, a meu ver, uma questão linear, para além do "correctamente falando" existem muitas situações em que se utilizam expressões que analisadas à lupa não fazem qualquer sentido mas que são aceites no dia-a-dia como correctas.
Cogitado por: maresia a outubro 26, 2005 09:07 AM
Sim, concordo contigo Maresia, a questão não é linear. Por isso mesmo ressalvo no artigo que se trata de uma questão pessoal e que o uso já ligitimou a dupla negação como uma negação. Não digo que é incorrecto usá-la. Digo apenas que eu faço o esforço de a evitar, uma vez que é facilmente possível e que assim preservo lógica do que digo. Não tenciono (nem o faço) corrigir seja quem for (até porque não é um erro). Ninguém está errado em usá-la como ninguém está errado em não a usar. Está instituído. O objectivo do artigo era primordialmente determinar a origem desta questão em particular e o porquê da sua presença nas línguas latinas mas não nas germânicas. É, como contas, uma dúvida que não é original, já num site tinha surgido. Desconhecia este facto mas as respostas que obtive são válidas em si mesmas. Obrigado Maresia pela visita e pelo olho crítico (no sentido positivo do termo).
Cogitado por: Mauro a outubro 26, 2005 11:56 AM
Cponcordo consigo. Especialmente porque, por razões profissionais, tenho tido muito contacto com a línua inglesa. Mas isto de línguas é mesmo asim: há por vezes uma grande falta de lógica. Estou a lembrar-me do significado da palavra "actually" de raiz latina. Curiosamente, significa "realmente" e não "actualmente", o que me parece uma distorção. Por outro lado, gostemos ou não, o que comanda a evolução das línguas é a lei do menor esforço, o que não é brilhante.... Embora aprecie a pureza da nossa língua, recuso-me a aceitar a sua não evolução. É que uma língua é uma ferramenta de comunicação e não uma peça de museu.
Cogitado por: deprofundis a outubro 26, 2005 04:07 PM
Completíssimo este post,imprimi para lê-lo melhor.
Sinceramente acho a nossa língua maravilhosa, já em relação ao Inglês, acho odiável a composição das frases. Amo de paixão o Francês, adoro a pronuncia...enfim. Aprecio uma pessoa que fale correctamente o Português, ainda que cada vez seja mais difícil encontrá-las.Fica bem. Tambem podes encontrar-me no: http://utilidades.blogs.sapo.pt/
Cogitado por: Elsita a outubro 26, 2005 04:47 PM
Já me tinha interrogado sobre isto... Bom artigo. Mas de facto é extremamente difícil corrigir um hábito de anos ou décadas, ainda para mais de uso corrente e geralmente não apontado como erro...
Cogitado por: Nox a outubro 26, 2005 08:14 PM
Devo realçar novamente que a «dupla negativa como negativa» não é um erro segundo a norma portuguesa actual, nem eu o considero como tal. A questão da evolução da língua é um argumento com duas lâminas, «deprofundis» (valsa lenta?!): a evolução de uma língua é um processo imparável, não há como o evitar nem sequer se procurar fazê-lo. Mas a evolução não deve servir como desculpa para erros gramaticais ou semânticos (como já vi fazer). Uma evolução é um processo gradual, de adaptações ligeiras que se acumulam ao longo do tempo. Um ser vivo com bruscas mutações raramente sobrevive, excepto em casos de mudanças bruscas do meio ambiente e consequentes extinções em massa. A evolução como processo inevitável é algo desejável e imparável, o erro é outra. Um erro é sempre considerado à luz a norma vigente. «Pharmácia» ou «mèdianamente» é um erro segundo a norma actual, não o era há 100 anos. A dupla negativa como negativa (e não como afirmativa) não é um erro, é perfeitamente correcto segundo a norma actual. Eu evito fazê-lo por chocar com os padrões da lógica que formou o universo e tudo o que nele existe (incluindo nós). Eu não o faço mas aceito perfeitamente a sua presença. Faz parte da evolução da língua, sem dúvida. A sua presença nas linguas latinas atesta bem a sua antiguidade. E eu abraço a evolução como o processo que tudo formou e que tanta beleza nos permitiu contemplar. Devo confessar-me, «Elsita», como amante de todos as línguas mas como amador de todas elas (o nosso belíssimo Português incluído). O Inglês tem a sua beleza, como o tem o Francês, o Alemão, ... Não há dúvida que a nossa parece ser das mais belas, pelo grau profundo das suas analogias, dos seus sinónimos, de toda a sua estrutura. Mas gostava de conhecer mais (como o Árabe ou o Chinês) para fazer um ranking pessoal... Cara Nox, é realmente difícil e se calhar nem é desejável. Esta é sem dúvida uma luta pessoal minha, uma luta para preservar a minha coerência lógica. É uma forma de manter a minha auto-vigilância desperta, para que outros erros (quiçá mais graves) surjam com menos frequência. A auto-correcção é um músculo mental que convém manter em forma. A lógica é sem dúvida a sua melhor treinadora...
Cogitado por: Mauro a outubro 26, 2005 09:11 PM
O meu forte não é a valsa (lenta ou rápida - já li esse livro de José Cardoso Pires e gostei muito). O meu forte é o swing, mas do golfe... Já agora, a propósito de falta de lógica, cá vai uma redundância muito comum "Há uns anos atrás". Eu cá digo apenas "há uns anos" ou então "uns anos atrás". Um abraço e parabéns pela sua luta. Estou consigo.
Cogitado por: deprofundis a outubro 26, 2005 10:57 PM
É de facto uma redundância cada vez mais comum. «Há um ano» é perfeitamente suficiente, que é atrás é óbvio. Ainda não há viagens no tempo, pelo que não é possível «Há um ano à frente». Mas curiosamente há uma consequência interessante que se retira da relatividade geral aplicada a um universo fechado sobre si mesmo: as viagens no tempo seriam possíveis, num tal universo (como é que seria a parte difícil). A questão é que ainda não se sabe a forma do nosso universo, não se sabe se será aberto (infinito) ou fechado. A ser ilimitado, por muito que se andasse sempre haveria mais para andar. Se fosse fechado, ao fim de um certo tempo a viajar (equivalente ao diâmetro da universo) voltaríamos ao ponto de partida (como na superfície da Terra). Talvez aí se pudesse aplicar a expressão «há um ano à frente»...
Cogitado por: Mauro a outubro 26, 2005 11:56 PM
Mais um dos artigos que me prendeu, e tal como a elsita imprimi para o ler, e reler. Na verdade, embora não seja considerado erro a dupla negativa em português, é bom fazer o esforço de não a utilizar na escrita, pois a torna bem mais erudita como a tua de hoje. O rigor e cuidado da investigação semântica, fascinou-me como sempre, e por isso não deixarei de passar por cá. Obrigada pelas visitas ao meu campo! Beijo
Cogitado por: Maria Papoila a outubro 27, 2005 02:10 PM
..no meio disso os franceses criaram o "si" nas respostas... para baralhar ainda mais a questão...
FORÇ'Aí!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt
Cogitado por: js a outubro 27, 2005 02:35 PM
Mauro, voltei para te indicar o meu post neste blog, que "vem de acordo" com o teu.
Cogitado por: Elsita a outubro 27, 2005 04:44 PM
É com prazer que recebo a tua visita, o teu comentário e o teu continuado apreço por este pequeno campo de singelos malmequeres beirando o teu florido campo de papoilas. Sem dúvida concordo contigo: um texto que evita a dupla negação como negação ganha um outro brilho inconfundível. Pois, caro Js, de facto os Franceses gostam muito de complicar a vida. O que é sem dúvida excelente: sempre ajudam a atenuar a velocidade com a sobre-simplificação (de qualquer forma imparável) se instala nas línguas (e na vida) moderna. Devo dizer, Elsita, que foi um prazer ler o teu artigo http://eestaheim.blogs.sapo.pt/arquivo/823671.html A combinação de conceitos gramaticais com a imagética cinematográfica com o desenrolar de emoções é deslumbrante.
Cogitado por: Mauro a outubro 27, 2005 09:42 PM
Mauro eu é que agradeço a tua participação: visitas e comentários e generosidade de palavras. Eu faço assim, pelo simples facto de partilhar. Seria uma pena não dividir com os outros o que penso ser útil e com qualidade, no meu ponto de vista. Um beijinho garnde para ti e obrigada
Cogitado por: Elsita a outubro 28, 2005 09:58 AM
É a grande tendência para o pleonasmo que os falantes portugueses têm. Gostamos de gastar palavras, se calhar. Eu confesso que sou das que aplico essas redundâncias sistematicamente, simplesmente pelo facto de que me acostumei a ouvir falar assim. A profissão é que me vai fazendo corrigir alguns pequenos defeitos, mas mesmo assim...
Cogitado por: PN a outubro 29, 2005 07:43 PM
Ja houve meia duzia de pessoas que me chamaram de louco quando lhes tentei mostrar o meu ponto de vista sobre esse assunto, e hoje lembrei-me de pesquisar na net para de facto confirmar se estava maluco com esta "minha teoria" ou nao, e afinal nao sou o unico.. lol
Cogitado por: Fred a janeiro 28, 2007 11:58 AM
Há pouca coisas mais difíceis de remover, «Fred», do que ideias feitas, baseadas no hábito e não na lógica. Mas não estás sozinho nessa «luta», também eu combato a teu lado.
Cogitado por: Mauro a janeiro 28, 2007 02:52 PM
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