05 novembro 2005

Cogitar (15 cogitações anteriores)

Or in igne

São usadas, na culinária, algumas substâncias que provocam ardor na boca e no estômago quando ingeridas. A pimenta, as malaguetas, o piri-piri são alguns dos exemplos mais usados na cozinha portuguesa. Mas como funcionam, o porquê desse ardor e em especial como o eliminar são questões a que a maioria das pessoas não saberá responder.

Que são as três de origem vegetal é óbvio pela sua aparência.
Pimenta
~ A pimenta pertence à família Piperaceae, género piper, que inclui mais de 1 000 espécies de arbustos e de lianas. É uma espécie que dá flor e que é extremamente resistente e domina os ambientes naturais em que se encontra. A pimenta preta é um pó feito com a baga da espécie Piper nigrum depois de seca (obtém-se a pimenta branca quando a baga é removida e apenas a semente é triturada).

MalaguetaPiri-piri~ As malaguetas e o piri-piri pertencem à família Solanaceae, género Capsicum. As malaguetas são da espécie annuum e o piri-piri da espécie frutescens.
O piri-piri é de origem africana e foi incorporada na culinária portuguesa no nosso passado colonial e é a mais picante espécie do género Capsicum (o seu nome em inglês, para se ter uma noção da qualidade picante, é African devil «demónio africano»).

O picante da pimenta é devido à piperina, substância presente quer na baga quer na semente da Piper nigrum, e o da malagueta e do seu primo piri-piri é conferido pela capsaicina.

A capsaicina irrita os nervos que transmitem as sensações de dor da boca para o cérebro, o nervo trigeminal (trigeminal porque três nervos se juntam a caminho do cérebro, o nervo óptico, o nervo maximal e o nervo mandibular. A ligação destes três explica a razão pela qual os nossos olhos involuntariamente se fecham quando provamos algo de sabor muito amargo ou ácido) enquanto a piperina irrita as papilas gustativas.

Os nervos trigeminais não são plenamente activados (se fossem não se sentia «a boca a arder», sentia-se «a boca a doer») mas a irritação é transmitida ao cérebro. Há receptores de dor ligados a este nervo na boca, no nariz e no estômago. Quando são activados libertam uma substância neurotransmissora que informa o cérebro de dor ou de inflamações na pele.
O consumo continuado da capsaicina destrói aos poucos esses receptores de dor, razão pela qual as pessoas desenvolvem tolerância progressiva aos picantes com o consumo continuado e podem ingerir substâncias progressivamente mais picantes.
Não são mais «fortes» do que os outros por conseguirem comer coisas extremamente picantes, têm é os nervos receptores trigeminais destruídos (o que não me parece uma boa ideia).

Além desses receptores trigeminais (sensíveis à dor, ao toque e à temperatura) há também as papilas gustativas (sensíveis aos sabor). Estas são também afectadas por estas substâncias mas não são destruídas. Mesmo que fiquem hiper-sensibilizadas, as papilas gustativas são substituidas de 2 em 2 semanas. As papilas encontram-se presentes em todo o lado dentro da boca, apesar de geralmente só serem pensadas presentes na língua. Os picantes afectam principalmente o topo das papilas gustativas (a base das papilas gustativas é mais sensível aos sabores amargos).

Alguns estudos já foram realizados em relação à desensabilização das papilas gustativas pelos picantes que referiram que, quem consome produtos picantes regularmente, tem uma premanente desensabilização das papilas gustativas e os sabores são afectados. Mas o consumo moderado de picantes revelou ter permitido às pessoas envolvidas no estudo uma maior percepção de sabores que antes não percepcionavam.
Talvez então haja uma justificação para o uso de picantes para realçar o sabor da comida... (para quem aprecie, claro).

Para acalmar o ardor provocado pelos picantes , a maioria das pessoas ingere água, algo relacionado com a imagem de «a boca a arder». No entanto beber água não é o método mais eficaz para retirar o picante das papilas gustativas (e, como quem já provou algum picante sem a ele estar habituado sabe, não resulta suficientemente rápido para ser bom). Outras soluções podem envolver a ingestão de pão (para «absorver» o picante), bebidas gaseificadas (para «dissolver» o picante) ou sumos de citrinos (para «lavar» o picante).

Só que o picante liga-se aos receptores das papilas gustativas (como queijo derretido frio na manga de uma camisa), pelo que uma simples passagem de água ou de outro líquido não o dissolve e o ardor persiste. Dilui-se bem no álcool (a verdadeira razão pela qual beber bebidas alcoólicas pode atenuar o ardor), gorduras e óleos mas não se dilui bem em água (razão porque beber água não é muito eficaz e após um alívio temporário de alguns segundos a sensação de ardor se mantém).

Uma substância na qual o picante se dissolve bem é a caseína, presente no leite. Como já pessoalmente pude várias vezes comprovar, ingerir leite após o consumo de algo picante elimina bastante eficazmente a sensação de ardor.
(Alguns estudos têm revelado que uma solução de 10% sacorose e 90% água a 20º C é tão eficaz como o leite a 5º C, enquanto uma bebida com 5% de álcool é tão (in)eficaz como a água a acalmar o ardor. Frequentementre os restaurantes na Tailândia têm à mesa, para além de pimenta e sal, também açúcar para os clientes puderem aliviar o picante das suas comidas).

OrinigneNo título, apesar de parecer uma marca de bolachas, significa «Boca em fogo». Or é o nominativo de ors «boca» (daí a palavra oral) e ignis é o ablativo latino para «fogo» (daí a palavra ignição).
Pensando bem, era um bom nome para uma marca de algum aperitivo picante. «Passa-me aí um pacote de «Orinigne». Era capaz de funcionar...)

Cogitado por Mauro Maia às 15:31 | Cogitar (15)
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Agora já sei o que fazer quando comer algo picante. Obrigada pela dica. As questões que deixaste no meu blog já têm resposta. Cogitado por: PN a novembro 5, 2005 07:31 PM
Obrigado eu pela visita, PxN, e pelas respostas às minhas questões. Cogitado por: Mauro a novembro 5, 2005 07:33 PM
cozinhar.............temperar ...........EXIGE " sabedoria, a doçura, a entrega, ..........." Cogitado por: Carlos a novembro 5, 2005 07:42 PM
Sou de opinião que a culinária é demasiado importante para ser deixada ao cuidado das mulheres. É uma arte à qual dedico alguma (não muita, para não criar maus hábitos...) atenção. Os picantes sempre me intrigaram. Mas, como estive em Moçambique, habituei-me de tal forma a eles que hoje consigo mastigar malaguetas sem grandes problemas. O que significa que estraguei parte das minhas capacidades gustativas. Aprecio muito o sabor da pimenta verde quando fresca. Cogitado por: deprofundis a novembro 5, 2005 10:02 PM
Agradeço a vossa visita. Considero é que a cozinho é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos de um qualquer «estrelador-de-ovos-com-salsicha-e-batata-frita», independentemente do sexo. Tenho consciência de que os grandes «chefs» internacionais são do sexo masculino, mas também tenho consciência de que a maioria (quase 100%) das refeições que alimentam a Humanidade diariamente são confeccionadas por mulheres. A capacidade imaginativa e diversificadora é bastante toldada quando a rotina obriga (não convida) à cozinha, como decerto concordas. «Invejo» (no bom sentido) a tua experiência africana. Gostava de um dia sentir essa narcose dos espaços amplos a perder de vista e a cornucópia da fauna africana... Cogitado por: Mauro a novembro 5, 2005 11:49 PM
Este post fez-me abrir o apetite! Adoro todos estes condimentos na medida certa, e ao encontrar tãos bons mestres cozinheiros, dá vontade de entrar pelo ecrã adentro...Hoje os meus blogs favoritos, dão-nos notícias da cozinha e não vale, para quem está em dieta! Pimenta na língua já se usava quando eu era pequena e dizia asneiras...! Beijo Cogitado por: Maria Papoila a novembro 6, 2005 03:03 PM
Agradeço-te a inclusão do Cognosco na categoria dos teus blogs favoritos (se a tanto pode a minha lógica se permitir...) É sem dúvida recíproco o sentimento. Cogitado por: Mauro a novembro 6, 2005 05:11 PM
Quando li o artigo fiquei intrigada: achava mesmo que o nervo trigémeo veicula fibras aferentes viscerais especiais para o cérebro, ou seja, informação gustativa (isto para além da sensitiva, aferente somática geral). Acho que vou ter de consultar a bibliografia. (A minha memória já não é mesmo o que era...) Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 12:32 AM
Ou talvez a tua memória esteja óptima e as minhas fontas incorrectas. Posso te pedir o favor de o verificares exactamente e depois deixares a informação correcta? Imprecisões não são de todo bem-vindas no Cognosco. A haver alguma, agradeço sempre a correcção. Agradeço-te antecipadamente, Nox. Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 11:42 AM
Afinal, eu não tinha razão. As fibras que integram o nervo trigémeo são aferentes viscerais gerais (sensibilidade) e eferentes viscerais especiais (para os músculos derivados do primeiro arco branquial). O que acontece é que a corda do tímpano, ramo do nervo facial, veicula fibras aferentes viscerais especiais (gustativas); embora pertença ao nervo facial, acaba por se incorporar no nervo lingual, ramo do trigémeo. Daí a minha confusão. Tem toda a lógica que substâncias irritantes actuem sobre o trigémeo, dado que este fornece a sensibilidade táctil e dolorosa à mucosa bucal e a muita da lingual. Aliás, acho que li em tempos que o efeito irritante do amoníaco se deve a estimular as terminações deste nervo na mucosa nasal. Não posso avançar mais sobre o caso da capsaicina, porque emprestei a maior parte da bibliografia que tinha. Provavelmente está correcta a informação aqui apresentada :) Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 09:29 PM
Esperemos que pela primeira vez isso possa acontecer por aqui... o Cognosco ter razão... ;) Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 09:37 PM
Ora, ora! A modéstia é desnecessária... :) Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 09:49 PM
Admite que era uma brincadeira irresistível. Não passou disso. Desconfio da modéstia (é geralmente falsa) como desconfio da soberba (esconde geralmente sentimentos de inferioridade por resolver). Por aqui o Cognosco vai tendo razão, falhando por vezes. A questão é a intensão de não o fazer e saber admitir e corrigir quando ocorre. A percentagem da ignorância é sempre maior do que a do conhecimento. A não acreditar nisso cai-se no laxismo e na auto-ilusão. E deve sempre tentar temperar tudo com humor ... Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 10:46 PM
Olá Mauro. Vou-te contar uma história que se passou comigo estava eu na tropa em Cabinda. O meu grupo de combate tinha saído em patrulha para o mato e levávamos rações de reserva, as r.r's. Certo é que depois de andarmos três dias no mato deu-nos uma fome levada da breca. Chegámos a um povoado e como víamos ali umas galinhas a "passear" resolvemos fazer negócio com o dono. Pergunta aqui pergunta ali, as galinhas "não" eram de ninguém. Sendo assim há que apanhar algumas e zás. Logo um dos locais presentes disse que afinal eram dele e, depois de pagarmos o preço que ele nos disse mandámos fazer uma churrascada. Bom Mauro não te conto nem te digo, é que a cozinheira meteu tanto "gindungo" (o nome do piri-piri em Angola) que aquilo é que foi suar e a boca a arder. :) Mas não foi partida dela por causa dos casos das galinhas mas é assim que eles costumam fazer churrasco. Chegam a engolir o "gindungo" inteiro. Claro que para apagar um "fogo" daqueles só à base da cerveja, se eu tivesse lido este artigo nessa altura tinha pedido... leite! :)) Um abraço. Cogitado por: marius70 a novembro 8, 2005 07:01 PM
Bom, a cerveja foi uma óptima solução tendo em conta as circunstâncias: a camaradagem «puxa» à partilha, não havia vacas à disposição e a capsaina dissolve-s m álcool. Desde que acima dos 5%... Eu imagino as quantidades de experiências que uma experiência traumatizante como uma guerra deve originar. E daí se calhar nem imagino... É a sorte que as gerações pós-25-de-Abril têm e que costumam ignorar... Cogitado por: Mauro a novembro 8, 2005 11:13 PM