05 novembro 2005Cogitar (15 cogitações anteriores)Or in igneSão usadas, na culinária, algumas substâncias que provocam ardor na boca e no estômago quando ingeridas. A pimenta, as malaguetas, o piri-piri são alguns dos exemplos mais usados na cozinha portuguesa. Mas como funcionam, o porquê desse ardor e em especial como o eliminar são questões a que a maioria das pessoas não saberá responder. Que são as três de origem vegetal é óbvio pela sua aparência.
O picante da pimenta é devido à piperina, substância presente quer na baga quer na semente da Piper nigrum, e o da malagueta e do seu primo piri-piri é conferido pela capsaicina.
Os nervos trigeminais não são plenamente activados (se fossem não se sentia «a boca a arder», sentia-se «a boca a doer») mas a irritação é transmitida ao cérebro. Há receptores de dor ligados a este nervo na boca, no nariz e no estômago. Quando são activados libertam uma substância neurotransmissora que informa o cérebro de dor ou de inflamações na pele. Além desses receptores trigeminais (sensíveis à dor, ao toque e à temperatura) há também as papilas gustativas (sensíveis aos sabor). Estas são também afectadas por estas substâncias mas não são destruídas. Mesmo que fiquem hiper-sensibilizadas, as papilas gustativas são substituidas de 2 em 2 semanas. As papilas encontram-se presentes em todo o lado dentro da boca, apesar de geralmente só serem pensadas presentes na língua. Os picantes afectam principalmente o topo das papilas gustativas (a base das papilas gustativas é mais sensível aos sabores amargos). Alguns estudos já foram realizados em relação à desensabilização das papilas gustativas pelos picantes que referiram que, quem consome produtos picantes regularmente, tem uma premanente desensabilização das papilas gustativas e os sabores são afectados. Mas o consumo moderado de picantes revelou ter permitido às pessoas envolvidas no estudo uma maior percepção de sabores que antes não percepcionavam.
Só que o picante liga-se aos receptores das papilas gustativas (como queijo derretido frio na manga de uma camisa), pelo que uma simples passagem de água ou de outro líquido não o dissolve e o ardor persiste. Dilui-se bem no álcool (a verdadeira razão pela qual beber bebidas alcoólicas pode atenuar o ardor), gorduras e óleos mas não se dilui bem em água (razão porque beber água não é muito eficaz e após um alívio temporário de alguns segundos a sensação de ardor se mantém). Uma substância na qual o picante se dissolve bem é a caseína, presente no leite. Como já pessoalmente pude várias vezes comprovar, ingerir leite após o consumo de algo picante elimina bastante eficazmente a sensação de ardor.
Cogitado por Mauro Maia às 15:31
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Agora já sei o que fazer quando comer algo picante. Obrigada pela dica. As questões que deixaste no meu blog já têm resposta.
Cogitado por: PN a novembro 5, 2005 07:31 PM
Obrigado eu pela visita, PxN, e pelas respostas às minhas questões.
Cogitado por: Mauro a novembro 5, 2005 07:33 PM
cozinhar.............temperar ...........EXIGE
" sabedoria, a doçura, a entrega, ..........."
Cogitado por: Carlos a novembro 5, 2005 07:42 PM
Sou de opinião que a culinária é demasiado importante para ser deixada ao cuidado das mulheres. É uma arte à qual dedico alguma (não muita, para não criar maus hábitos...) atenção. Os picantes sempre me intrigaram. Mas, como estive em Moçambique, habituei-me de tal forma a eles que hoje consigo mastigar malaguetas sem grandes problemas. O que significa que estraguei parte das minhas capacidades gustativas. Aprecio muito o sabor da pimenta verde quando fresca.
Cogitado por: deprofundis a novembro 5, 2005 10:02 PM
Agradeço a vossa visita. Considero é que a cozinho é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos de um qualquer «estrelador-de-ovos-com-salsicha-e-batata-frita», independentemente do sexo. Tenho consciência de que os grandes «chefs» internacionais são do sexo masculino, mas também tenho consciência de que a maioria (quase 100%) das refeições que alimentam a Humanidade diariamente são confeccionadas por mulheres. A capacidade imaginativa e diversificadora é bastante toldada quando a rotina obriga (não convida) à cozinha, como decerto concordas. «Invejo» (no bom sentido) a tua experiência africana. Gostava de um dia sentir essa narcose dos espaços amplos a perder de vista e a cornucópia da fauna africana...
Cogitado por: Mauro a novembro 5, 2005 11:49 PM
Este post fez-me abrir o apetite! Adoro todos estes condimentos na medida certa, e ao encontrar tãos bons mestres cozinheiros, dá vontade de entrar pelo ecrã adentro...Hoje os meus blogs favoritos, dão-nos notícias da cozinha e não vale, para quem está em dieta! Pimenta na língua já se usava quando eu era pequena e dizia asneiras...! Beijo
Cogitado por: Maria Papoila a novembro 6, 2005 03:03 PM
Agradeço-te a inclusão do Cognosco na categoria dos teus blogs favoritos (se a tanto pode a minha lógica se permitir...) É sem dúvida recíproco o sentimento.
Cogitado por: Mauro a novembro 6, 2005 05:11 PM
Quando li o artigo fiquei intrigada: achava mesmo que o nervo trigémeo veicula fibras aferentes viscerais especiais para o cérebro, ou seja, informação gustativa (isto para além da sensitiva, aferente somática geral). Acho que vou ter de consultar a bibliografia. (A minha memória já não é mesmo o que era...)
Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 12:32 AM
Ou talvez a tua memória esteja óptima e as minhas fontas incorrectas. Posso te pedir o favor de o verificares exactamente e depois deixares a informação correcta? Imprecisões não são de todo bem-vindas no Cognosco. A haver alguma, agradeço sempre a correcção. Agradeço-te antecipadamente, Nox.
Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 11:42 AM
Afinal, eu não tinha razão. As fibras que integram o nervo trigémeo são aferentes viscerais gerais (sensibilidade) e eferentes viscerais especiais (para os músculos derivados do primeiro arco branquial). O que acontece é que a corda do tímpano, ramo do nervo facial, veicula fibras aferentes viscerais especiais (gustativas); embora pertença ao nervo facial, acaba por se incorporar no nervo lingual, ramo do trigémeo. Daí a minha confusão. Tem toda a lógica que substâncias irritantes actuem sobre o trigémeo, dado que este fornece a sensibilidade táctil e dolorosa à mucosa bucal e a muita da lingual. Aliás, acho que li em tempos que o efeito irritante do amoníaco se deve a estimular as terminações deste nervo na mucosa nasal. Não posso avançar mais sobre o caso da capsaicina, porque emprestei a maior parte da bibliografia que tinha. Provavelmente está correcta a informação aqui apresentada :)
Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 09:29 PM
Esperemos que pela primeira vez isso possa acontecer por aqui... o Cognosco ter razão... ;)
Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 09:37 PM
Ora, ora! A modéstia é desnecessária... :)
Cogitado por: Nox a novembro 7, 2005 09:49 PM
Admite que era uma brincadeira irresistível. Não passou disso. Desconfio da modéstia (é geralmente falsa) como desconfio da soberba (esconde geralmente sentimentos de inferioridade por resolver). Por aqui o Cognosco vai tendo razão, falhando por vezes. A questão é a intensão de não o fazer e saber admitir e corrigir quando ocorre. A percentagem da ignorância é sempre maior do que a do conhecimento. A não acreditar nisso cai-se no laxismo e na auto-ilusão. E deve sempre tentar temperar tudo com humor ...
Cogitado por: Mauro a novembro 7, 2005 10:46 PM
Olá Mauro. Vou-te contar uma história que se passou comigo estava eu na tropa em Cabinda. O meu grupo de combate tinha saído em patrulha para o mato e levávamos rações de reserva, as r.r's. Certo é que depois de andarmos três dias no mato deu-nos uma fome levada da breca. Chegámos a um povoado e como víamos ali umas galinhas a "passear" resolvemos fazer negócio com o dono. Pergunta aqui pergunta ali, as galinhas "não" eram de ninguém. Sendo assim há que apanhar algumas e zás. Logo um dos locais presentes disse que afinal eram dele e, depois de pagarmos o preço que ele nos disse mandámos fazer uma churrascada. Bom Mauro não te conto nem te digo, é que a cozinheira meteu tanto "gindungo" (o nome do piri-piri em Angola) que aquilo é que foi suar e a boca a arder. :) Mas não foi partida dela por causa dos casos das galinhas mas é assim que eles costumam fazer churrasco. Chegam a engolir o "gindungo" inteiro. Claro que para apagar um "fogo" daqueles só à base da cerveja, se eu tivesse lido este artigo nessa altura tinha pedido... leite! :)) Um abraço.
Cogitado por: marius70 a novembro 8, 2005 07:01 PM
Bom, a cerveja foi uma óptima solução tendo em conta as circunstâncias: a camaradagem «puxa» à partilha, não havia vacas à disposição e a capsaina dissolve-s m álcool. Desde que acima dos 5%... Eu imagino as quantidades de experiências que uma experiência traumatizante como uma guerra deve originar. E daí se calhar nem imagino... É a sorte que as gerações pós-25-de-Abril têm e que costumam ignorar...
Cogitado por: Mauro a novembro 8, 2005 11:13 PM
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