22 novembro 2005Cogitar (13 cogitações anteriores)Celer turtur
~ O que se passava com ele? Então não se vê logo que Aquiles a ultrapasa num ápice?
Parménides era admirado pelos seus concidadãos pela sua vida exemplar e pela excelente legislação que deu à cidade, a que os cidadãos sentiam que deviam a sua prosperidade. Zenão era também oriundo de Elea-Velia e o melhor discípulo de Parménides. As críticas ao seu mestre não lhe agradavam e foi para o defender que criou os seus famosos Paradoxos de Zenão. Neles propôs-se mostrar que os sentidos forneciam informações que eram contraditórias e que portanto a mudança, o movimento, a pluralidade eram ilógicas e inexistentes. Quase tudo o que se sabe sobre Zenão encontra-se nas páginas de abertura da obra de Platão Parmenides. (Para mais sobre Platão ver também Euler ergo Platon). O livro não sobreviveu até aos nossos dias e tudo o que se sabe sobre os paradoxos é através das críticas dos seus opositores, como Aristóteles. Uma das personagens que Aristóteles criou, de nome Simplício, segue em traços gerais as argumentações de Zenão, apesar de este ter vivido mil anos antes de Aristóteles. Parece ter havido 40 paradoxos relacionados com a Pluralidade (que mostravam que acreditar que tudo era composto de muitas coisas, em vez de só uma, conduzia a paradoxos lógicos). Desses 40 apenas dois sobreviveram. Aristóteles refere também 4 paradoxos relacionados com o Movimento (onde se inclui o Paradoxo de Aquiles e da Tartaruga) e ainda atribui outros 2 paradoxos a Zenão. Paradoxos da Pluralidade ~ Argumento da Densidade: suponha-se que existissem, como os sentidos nos indicam, um conjunto de várias coisas distintas. Se é um conjunto, argumenta Zenão, tem um número finito de coisas (o infinito não é um número concreto, portanto um conjunto não pode ter, na sua óptica, infinitas coisas). Para que se percepcione cada coisa como individual, tem de haver algo que as separe. Esse algo tem de estar, também separado por outra coisa (se não seria a mesma coisa, e não as separaria). Assim continuamente. ~ Argumento do Tamanho Finito: Zenão argumenta que, se houvesse infinitas coisas no Universo, estas teriam de ter um tamanho nulo. Assim sendo seriam não existentes. Então não pode haver infinitas entidades no Universo, elas não existem. ~ Argumento da Completa Divisão: este argumento é apresentado pela personagem Simplício. Suponha-se que se divide um corpo até às mínimas partes, partes que não são mais divisíveis. Então essas partes ou não existem (porque não têm tamanho) ou são pontos sem extensão. Se forem nada, então a sua soma, o corpo em questão, também não existe. Se forem pontos sem extensão, a sua soma, o corpo em questão, também não tem extensão, logo não existe com tal. Paradoxos do Movimento ~ A Dicotomia: antes de se chegar a um local, tem primeiro de se chegar a meio. Antes de se chegar a meio tem de se chegar a um quarto. Antes de se chegar a um quarto tem de se chegar a um oitavo. E assim sucessivamente, um número infinito de intervalos a percorrer cada vez mais pequenos. Para Zenão, isto implica que nunca sequer se chega a partir. Como tal o movimento é ilógico e uma ilusão dos sentidos. ~ Aquiles e a Tartaruga: como a Tartaruga parte mais à frente e, de cada vez que Aquiles chega ao local onde ela estava, ela já se encontra mais à frente, Aquiles, por muito que corra nunca a chega a apanhar. A velocidade de Aquiles é ilógica e como tal uma ilusão. ~ o Estádio: imagine-se 3 filas de corpos iguais. Uma das filas está parada, as outras duas estão em movimento paralelo entre as três a uma velocidade constante. A fila do meio move-se da esquerda para a direita e a terceira fila da direita para a esquerda. A velocidade das filas é V e de cada vez o corpo de um fila alinha-se com um corpo da outra. Por meio de algumas confusões em relação às velocidades relativas de cada fila umas em relação à outras, Zenão afirma que o movimento de uma fila demora metade do tempo e o da outra o dobro, sendo que as suas se movem ao mesmo tempo. Conclui assim que o movimento é uma ilusão. Paradoxo do Local Tudo o que existe tem que estar em algum lugar. Esse lugar, por sua vez, também está algures. Esse por sua vez noutro ainda. E assim ad infinitum. Haveria assim um número infinito de coisas, de locais no Universo. Isso, para Zenão, é ilógico. Portanto a pluralidade é uma ilusão. O Saco de Grãos Quando um saco com grãos cai ao chão, produz um som. Este som é a soma dos sons produzidos por todos os grãos a chocarem contra o chão. E o som produzido por cada grão é a soma do som produzido por cada parte do grão. Assim cada parte de cada grão produz um som quando atinge o chão. Mas, argumenta, quando se deixa cair uma parte de um grão no chão não se ouve qualquer barulho. Então o sentido da audição apresenta falsas informações. Se cada parte não produz barulho, a soma de todos os não-barulhos é também um não barulho. Pensa-se que se ouve um som, mas isso é falso. Os sentidos são uma ilusão. É claro que todos os paradoxos apresentados por Zenão (os que sobreviveram) são simplesmente aparentes. Todos eles são demonstráveis como contendo falsas conclusões. Mas, apesar disso, Zenão teve um profundo impacto em vários filósofos: os Pitagóricos (uma escola filosófica que considerava que tudo era constituido por números. Foi Pitágoras quem cunhou o termo Filosofia pela primeira vez. Ele foi o primeiro filósofo); os Atomistas (que, segundo Aristóteles, consideraram o argumento da eterna divisão e consideraram que teria de haver um limite à divisão. Esse limite era o atom, «indivisível» em grego); Grünbaum (1967) aplicou os conhecimentos matemáticos modernos para, de uma vez por todas, mostrar a falsidade dos argumentos de Zenão; Monoteísmo (há quem considere a Escola Eleática a primeira filosofia monoteísta europeia. Tudo é apenas uma entidade, imóvel, imutável. Muitos vêem estas características como sendo próprias de uma divindade, una e universal).
No título «A rápida tartaruga» Cogitado por Mauro Maia às 22:27
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Um artigo intenso, com todas essas "desconstruções da realidade" que o Zenão apregoava. Por acaso no outro dia ouvi uma contra-resposta curiosa a um dos mais famosos enigmas paradoxais: "Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para a ouvir, será que faz barulho?"; "E se a avó cair das escadas abaixo e partir uma perna e ninguém estiver lá para a ouvir, será que faz barulho?" Meditemos...
Cogitado por: Rui a novembro 23, 2005 04:07 PM
Paradoxalmente ou não, gostei muito da parte final do artigo, que nos lembra a história egípcia... Li os paradoxos da escola de Zenão, mas o assunto é denso! Tenho de o reler e ...triler... Beijo
Cogitado por: Maria Papoila a novembro 23, 2005 07:39 PM
Se a realidade for objectiva, a queda da avó fará, certamente, muito barulho. Se não o for, depende do ponto de vista. Na perspectiva de alguém que ainda não teve a oportunidade de se aperceber da queda da senhora, esta existe numa estranha sobreposição de dois estados: o da avó que não caiu (e que, por conseguinte, não fez barulho) e o da avó que deu um (ruidoso) trambolhão. Essa sobreposição seria regida por uma função matemática que tem o nome de função de onda, a qual deveria, pelo menos em princípio, permitir calcular a probabilidade de cada um desses estados sobrepostos (na prática assim não acontece, dada a complexidade do problema). Já na perspectiva da senhora, ela aperceber-se-ia com certeza da sua própria queda, pelo que provocaria o colapso da referida função de onda, passando o estado correspondente à queda (e à existência de barulho) a ser verdadeiro (100% de probabilidade) e o estado complementar de não-queda/não existência de barulho a ser falso (0%). A menos, claro, que a pobre da senhora fosse surda...
Cogitado por: . a novembro 23, 2005 08:06 PM
gostei desta abordagem quântica...
Cogitado por: MZ a novembro 23, 2005 09:57 PM
Objectivamente, a senhora caiu de facto. A questão da avó é, pelo menos num ponto crucial, diferente da da árvore: há pelo menos um observador presente na queda da avó (a própria). Não há a mesma garantia de existência de um observador no caso da queda da árvore. Logo, como bem referiu «.», a função de onda de Schrödinger colapsa pela presença de um observador na avó mas não necessariamente no da árvore. A avó caiu mesmo, pois ela sabe que sim. Claro, se ela for surda e não ouvir a sua queda, será que fez barulho? Era necessária a presença de um observador/registador para colapsar a função de onda nesta questão. Mas esta questão é complexifica-se em relação ao que entende por um observador. A imagem clássica do «gato de Schrödinger», bem adaptada por «.» à questão da queda, levanta uma questão: é verdade que, sendo o spin da partícula emitida desconhecido, não se sabe se o gato morreu ou não. É necessário abrir a caixa para que a função de onde colapse. Mas não é o gato um observador/registador? Será uma câmara de vídeo mais observadora do que um gato (vê mais, mas não observa)? Não é a presença felina suficiente para colapsar a função de onda? Um observador externo pode não saber se o gato morreu ou não (por não saber o spin da partícula libertada), mas garantidamente o gato sabe se está vivo (não saberá é se está morto...)
Cogitado por: Mauro a novembro 23, 2005 10:39 PM
hei-de falar sobre isso com o meu professor de Mecânica Quântica... no entanto, como observa Feynman, uma árvore real a cair numa floresta real faz barulho mesmo que não esteja lá ninguém para ouvir. a onda sonora que se liberta poderá fazer oscilar as folhas de outras árvores, por exemplo. e poderá também acontecer que uma folha a oscilar raspe num ramo e faça um pequeno risco. assim, numa observação posterior, encontraríamos uma pequeno risco que só poderia ser explicado se a folha tivesse vibrado. ou seja, teríamos de admitir que uma onda sonora se tinha propagado.
Cogitado por: MZ a novembro 24, 2005 12:14 AM
Mas a questão que, para mim, é a mais importante é a da adequação das teorias físicas à realidade que desejam descrever. Já li, algures, que a ideia de que a presença de um observador/registador altera «per se» o resultado de uma experiência quântica é incorrecta e de as teorias quânticas modernas já a ultrapassaram. Mas necessitaria de fazer uma pesquisa mais profunda sobre o assunto. Mas sem dúvida que, se a teoria quântica não prevê com alto grau de probabilidade que uma árvore faz barulho quando cai, independentemente de alguém a ouvir ou não, então necessita de uma revisão e/ou aprimoramento. Na minha opinião (e ressalvo que é a minha) há uma realidade objectiva que não necessita de um observador externo para se concretizar. Por mais de 10 mil milhões de anos o Universo evolui e formou-se, estrelas nasceram e morreram sem que alguém necessitasse estar presente. Mesmo que pressuponhamos a existência de extraterrestres algures no Universo (que é impossível e indesejável de excluir) que existissem há muito milhões de anos, só podiam ter surgido após a morte das primeiras estrelas ter produzido elementos mais pesados do que o hidrogénio e o hélio (mais um pouco de lítio) que se formou após o Big-Bang e o arrefecimento do Universo. Em particular, após a das primeiras estrelas acima do limite do princípio de exclusão de Pauli (ou seja, as estrelas cuja morte produz uma super-nova e consequentemente uma estrela de neutrões ou um buraco negro). Só estrelas massiças produzem, nas suas reacções nucleares, elementos mais pesados do que os de nº atómico mais baixo. Num Universo de composição (quase-)homogénea e de números atómicos baixos não pode surgir a vida e muito menos vida inteligente. A vida, por mais simples que seja, pressupõem uma variedade de átomos e moléculas que interajam para produzirem as reacções químicas complexas necessárias. Portanto, nos seus primeiros milhares, milhões de anos, o Universo não teve como produzir observadores. E no entanto as estrelas nasceram, morreram, galáxias formaram-se e, neste cantinho do Universo, na fronteira externa de um dos braços de uma simples galáxia espiralada, a vida pode surgir e, depois de mais de 4 mil milhões de anos, produzir a inteligência humana que se interroga de onde veio e onde está. Por isso reforço a minha ideia inicial: algo não está correcto na aplicação de um teoria ao mundo observável se falha nas suas previsões quanto à objectividade dos fenómenos que estuda. Ou falha na própria teoria ou falha na aplicação dessa teoria a um contexto onde não se aplica. Como disse, parece-me ter já visto algures que a visão dos modernos físicos quânticos alterou-se e permite um universo macroscópico que não necessita de observadores conscientes para se justificar. Mas necessito de mais tempo... Ainda bem que temos um comentador com acesso directo à Matemática quântica. As questões podem mais correctamente serem aferidas à luz da ciência actual (é inegável que a simples leitura está permanentemente, por limitações de publicação, ligeiramente desfasada dos conhecimentos que tenta explicar).
Cogitado por: Mauro a novembro 24, 2005 09:57 AM
Sempre que oiço falar em Tartarugas só me lembro de ver o Mário Soares em cima duma nas Seychelles.
Gosto muitom do artigo.
Temos dito.
Ass: Alfinete de Peito
Cogitado por: Alfinete de Peito a novembro 25, 2005 02:32 PM
Há alfinetadas que se recebem com prazer. As do (não no) peito são algumas delas. Bem vindo(a) ao Cognosco, obrigado pela visita e pelo comentário. É sempre um gosto saber que o que produzimos é apreciado, um gosto maior do que o que terá tido a tartaruga em transportar um passageiro...
Cogitado por: Mauro a novembro 25, 2005 06:59 PM
não era um coelho??
Cogitado por: maresia a novembro 29, 2005 08:46 PM
À frente de Aquiles ou dentro da caixa de Schrödinger? É certo que, em qualquer uma, se imagina um «What's up, doc?» a dar a volta à questão...
Cogitado por: Mauro a novembro 29, 2005 09:16 PM
Há milhões de anos que se formaram as estrelas, sistemas estelares e planetas. Mas (quanticismo!!!) Só o soubemos agora (há puquíssimo tempo) ... Somos também os observadores de nosso universo. Nossas todas consciências também reduziram o pacote de ondas do universo. Pacote muito grande, é verdade, mas ainda um pacote. Não vamos nos subestimar. Temos total capacidade de reduzir pacotes de ondas de qualquer magnitude!
Cogitado por: Jefferson de Mello a fevereiro 12, 2006 08:06 PM
Para conseguirmos reduzir o pacote de ondas que é o Universo era preciso que fôssemos bem mais do que os simples humanos que somos presentamente. Só o facto de o Universo ter uma extensão superior a 15 mil milhões de anos-luz impede-nos fisicamente de o abarcar como um todo. Não me incomoda a noção de não passarmos de minúsculos quarks perante a grandiosidade do universo. Pelo contrário, é por isso mesmo que estendo a mão e procuro abarcar mais uma gotícula de cada vez. Se achasse que tudo era possível e fácil sentava-me de braços cruzados e esperava que o Mundo viesse ter comigo...
Cogitado por: Mauro a fevereiro 12, 2006 10:44 PM
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