30 novembro 2005Cogitar (9 cogitações anteriores)Volatu somniumPoucas são as pessoas que, até hoje, não tenham voado alguma vez ou pensado em fazê-lo. É uma das grandes conquistas da Humanidade.E, no entanto, muitas são as pessoas que receiam voar. Quando o têm de fazer passam mal, sentem um pânico contínuo durante o voo e qualquer ligeiro estremecimento é causa de preocupação. É um medo geralmente ligado ao desconhecimento de como pode algo, que pesa toneladas, erguer-se no ar. As pessoas são mais leves e não conseguem levantar voo...E as coisas que voam e que fazem parte da experiência diária das pessoas (os pássaros e os morcegos) nem meia centena de quilos pesam...(Os gigantes pterodátilos nunca fizeram parte da experiência diária de qualquer ser humano, como visto em Cave sauvrie)Nas poucas situações em que uma explicação para o voo dos aviões é dada, geralmente envolve algo como o «facto» de o ar, devido à forma da asa, circular mais rapidamente por cima da asa do que por baixo. Pelo Princípio de Bernoulli então a pressão do ar por cima da asa é inferior à pressão do ar por baixo da asa. Dessa forma a diferença de pressão leva a que o ar procure subir para compensar a diferença de pressão, «levantando» o avião.Mas esta explicação é incorrecta para explicar o voo. Basta pensar que, se a questão fosse a velocidade no ar no topo da asa ser maior devido à sua forma, seria impossível os aviões voarem de cabeça para baixo. É possível verificar (ao vivo ou em filmes) que os aviões podem voar invertidos (os militares em especial). Com a asa invertida, a pressão seria maior por baixo do avião e este cairia...Na verdade, o facto de um avião puder voar, não tem a ver com «pressões de ar diferentes». O Efeito de Coanda (pelo qual um fluido em movimento sobre uma superfície convexa tende a circular «agarrado» à superfície) e as três Leis do movimento de Newton (de que se falou em Conor explicare gravitatem) são suficientes para explicarem o voo dos aviões. A descrição matemática é indispensável para a construção exacta de aviões, mas a descrição com princípios físicos faz entender correctamente os princípios envolvidos e explica, entre outros fenómenos, o voo invertido.O Efeito de Coanda foi descoberto pelo inventor Romeno Henri Coanda durante experiência com o seu avião Coanda-1910, que exibiu na IIª Exposição Aeronáutica em Paris, em Outubro de 1910. Este avião (com um envergadura de asas de 10,3 metros e comprimento de 12,5 metros) foi o primeiro avião a jacto alguma vez construido. Em Dezembro de 1910, enquanto Coanda experimentava o seu avião, observou que os gases em combustão (que saíam dos reactores laterais do avião) circulavam junto e ao longo da fuselagem do avião, em vez de sairem em linha recta. Devido à proximidade dos gases, o avião pegou voo e explodiu. Ele e outros cientistas passaram anos a investigar este fenómeno, que recebeu o nome de Princípio de Coanda ou Efeito de Coanda.Para se verificar este princípio, basta abrir uma torneira e deixar a água correr. Se se aproximar a parte de baixo de uma colher (superfície convexa) do fluxo de água (sem lhe tocar), o fluxo próximo da colher vai encurvar-se e fluir com a curvatura da colher. ~ Então como se aplicam as Leis de Movimento de Newton e o Princípio de Coanda para explicar porque sobe um avião?A Primeira Lei de Newton afirma que um corpo permanece em repouso ou em movimento rectilíneo uniforme (velocidade constante ao longo de uma linha recta) excepto de for sujeito a uma força externa. Quando o avião está em movimento, o ar (que está parado) é sujeito a uma força (a passagem das asas do avião). Pela Terceira Lei de Newton (para qualquer acção há uma reacção com a mesma intensidade e direcção oposta) o ar exercerá sobre a asa uma força com a mesma intensidade que a força que a asa exerce sobre o ar com sentido contrário. É esta reacção que faz levantar as asas (e todo o avião com elas). É por um efeito de reacção que os navios flutuam na água... A quantidade de ar que um avião desloca da horizontal para a vertical depende da asas que possui e da sua massa.Por exemplo, um Cesna 172 pesa perto de 1 tonelada. Se viajar a uma velocidade de 200 Km/h, a velocidade vertical do ar que desloca é sensivelmente 18 Km/h. Pela segunda Lei do Newton, e pressupondo um valor médio de 9 Km/h, a quantidade de ar deslocada na vertical é de 5 toneladas por segundo. Ou seja, um Cesna desloca cinco vezes o seu peso em ar por segundo. É isto que produz a ascensão do avião. Imagine-se a quantidade de ar deslocada por um Boing 777 (250 toneladas) ou o novo Airbus A380 (550 toneladas)... Cogitado por Mauro Maia às 14:31
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Acho que no fundo o que algumas pessoas temem mesmo é a morte. O que vem depois disso?
às vezes, deixamos de fazer algo e viver grandes experiências por simples medo, covardia. Nos escondemos atrás da estabilidade, da aparência, do provável. O medo do fracasso não nos deixa nem tentar.
Aloha
Cogitado por: cris a dezembro 1, 2005 09:45 AM
Sem dúvida que o medo da morte está presente no medo de voar. Mas não pode ser a única explicação. Se fosse, ninguém entrava num carro: há muitíssimas mais mortes (mortes mesmo, não só acidentes)por acidentes rodoviários do que por acidentes de avião (que é, estatisticamente, o meio de transporte mais seguro). A questão parece-me ser a de que as pessoas «compreendem» porque anda um carro, vêem-no assente no chão. Mas não «compreendem» como pode um avião «andar» sobre as nuvens. Como tal receiam-no. A Humanidade é infelizmente cheia de medo perante o que desconhece. Como bem dizes, Cris, essa é a causa de tantas experiências maravilhosas que não se realizam por medo, mas também é a causa do racismo, da xenofobia, das perseguições medievais às bruxas, da inquisição, das cruzadas, do nazismo, do 11 de Setembro,... Geralmente, mais do que o medo de estarem correctas, as pessoas receiam não estarem. Por isso nem fazem a experiência. Voar é, para mim, uma sensação maravilhosa, quer ao nível físico quer ao nível emocional (pensar que estou dentro de uma mais maiores realizações da Humanidade é incrível). Não sabe o que essa sensação maravilhosa quem se deixa escravizar pelos seus sentidos (que, apesar de aprimorados ao longo de milhões de anos, transmitem uma incorrecta falta de segurança quando estamos no ar, fruto do nosso passado evolutivo. Quando os nossos antepassados viviam nas árvores, não ter um ramo sobre o qual assentarmos era sinal de que uma queda e consequente morte se seguiria. Talvez o nosso medo de voar seja uma das melhores demonstrações do nosso passado como símio arborícola...) e ignora aquilo que nos destingue dos restantes animais (em grau, não em tipo): a nossa razão.
Cogitado por: Mauro a dezembro 1, 2005 10:56 AM
Mauro tenho pânico de andar de avião, embora não tenha outro remédio senão fazê-lo quando é necessário... Esta explicação pormenorizada e muito interessante como sempre, ajuda, até porque fui fazer a experiência da colher e da água, mas não cura! Já aprendi a controlar o pânico, mas o pânico não se explica, é uma "maleita" que precisa ser tratada... Muita gente tem crises de pânico com pequenos insectos inexplicáveis... por exemplo gafanhotos, que é o meu caso, e que também já estou em vias de cura, embora não goste muito dessas criaturas... Beijo
Cogitado por: Maria Papoila a dezembro 1, 2005 11:25 AM
De facto é uma sorte, Maria Papoila, eu nunca ter sentido medo de andar de avião. Na verdade sempre ansiei pela experiância. Curiosamente passei de nunca andar de avião para uma situação em que as viagens de avião são uma constante na minha vida. Do 8 para o 80... E gosto tanto hoje de andar de avião como da primeira vez que andei. Só posso desejar-te que possas o mais rapidamente que possas ultrapassar esse receio instintivo, para que possas apreciar a totalidade da magnífica sensação de voar...
Cogitado por: Mauro a dezembro 1, 2005 02:32 PM
há aqui uma pequenina incorrecção, não chega bem a ser um erro. uma omissão... os aviões voarem "ao contrário", não são o motivo pelo qual a teoria não é essa. é verdade o que diz Bernoulli, só não é suficiente. já esperimentaram voar de "pés para o ar"? eu já, em planador, sem motor. apesar da sensação de rotação em ascensão a verdade é que o planador perde altitude. uma das razões, não a única, pela qual estas "acrobacias" serem mais perigosas quanto menor for a altitude.
Cogitado por: maresia a dezembro 3, 2005 04:51 PM
Hum... As experiências que tive quando andei de avião não foram lá assim muito agradáveis. Mas nada teve a ver com o medo... Simplesmente o meu corpo não se dá lá assim muito bem com velocidades, altitudes e oscilações. Não consegui abrir os olhos sem me sentir tonta e passei as viagens a controlar uma sensação de enjoo permanente.
Cogitado por: PN a dezembro 3, 2005 07:30 PM
De facto, maresia, talvez não tenha explicado profundamente a questão do Princípio de Bernoulli e o voo invertido. Claro que há uma perda da altitude do aparelho, que se prende com a geometria da asa. Há asas simétricas em que o fluxo de ar desviado pelo efeito de Coanda é igual na posição normal e na invertida. O que eu queria realçar era o facto de, se fosse pelo princípio de Bernoulli que os aviões voassem, então num voo invertido o avião cairia. A perda de altitude aquando da inversão tem a ver com o ângulo a que o aparelho se desloca quando faz a inversão. Tem de compensar a diferença de simetria na asa e a consequente diferença de ar deslocado. Cada asa sua compensação... Eu entendo o que sentiste, PxN. A mim costumam doer-me os ouvidos quando ando de avião, devido às diferenças de pressão. Mas eu gosto tanto de voar que nem me importo. Já não aprecio tanto fazer viagens de automóvel pela montanha. Por vezes fico tão mal disposto que só fechando olhos, como te aconteceu na viagem de avião que referes. Mas também já se falou nessa questão aqui no Cognosco (http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/673595.html). Interessante será ver como se aplica a indisposição a um avião, em que não há contacto visual directo com o exterior ou este não apresenta grandes contrastes visuais...
Cogitado por: Mauro a dezembro 4, 2005 12:07 AM
Desde que nasci sempre viajei, a minha irmã e eu tinhamos aquela ansiedade de fazer a viagem só por um motivo...irmos a casa de banho e trazermos todos os sabonetes, pasta de dentes, escovas de dentes e toalletes perfumados, tudo e tamanho mini..para nós era uma alegria..eramos crianças e não tinhamos a percepção do acto e muito menos a percepção do perigo de um voo...Passando os anos, a minha irmã e a minha mãe dormiam durante todo o voo, normalmente era uma media de 6 a 7 horas..eu não, ficava atenta, bem acordada, o meu pai semre encontrava um parceiro para jogar ao domino ou as cartas...a medida que fui ficando adulta as viagens acabaram...passando alguns anos voltei a vajar e ai sim tive um "cagaço"...até hoje nunca mais viajei em avião, lá vão mais de 10 anos, talvez ainda ñ se proporcionou essa vontade. Só quero ver que é que o que me dá na proxima :) talvez nada e entre em mim o bichinho de viajar cada vez mais :) Gostei muito, beijos Beth
Cogitado por: Beth a dezembro 4, 2005 08:45 PM
Desejo que possas ultrapassar essa situação. Eu compreendo a força desse receio (talvez não exactamente, uma vez que nunca o tive). Eu considero (como disse num comentário anterior) que esse receio alvez radique no nosso passado evolutivo. E a ser assim é anterior à Humanidade o receio de nos encontrarmos sem apoio físico no ar. Mas também acredito que é o facto de se desconhecer a razão pela qual os aviões voam que agrava esse instinto natural. Também não faz parte dos nossos instintos andar a mais de 20 km/h e no entanto faze-mo-lo. O que eu procurei fazer com este artigo foi esclarecer essa razão, para que o nosso instinto arborícola não saia reforçado quando voamos. Desejo-te o melhor para esta situação, Beth, obrigado pela visita e pelo comentário.
Cogitado por: Mauro a dezembro 4, 2005 09:52 PM
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