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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 25 de Abril de 2006
O ninja das casas
Há, por vezes, infelizmente notícias de vítimas dos esquentadores a gás.
Quando ocorrem fala-se no gás que as vítimas inalaram e que as asfixiou. Não tendo outra ideia do que poderia ter provocado as mortes, muitas pessoas acabam por considerar que o gás a que os bombeiros se referem é o gás que alimenta os esquentadores. Mas qualquer um sabe que o gás doméstico tem um cheiro característico e difícil de ignorar, quer o metano (CH4) do gás natural quer o butano (C4H10) das botijas. O gás usado em casa, quer nos esquentadores quer nos fogões não tem um cheiro característico no seu estado puro, mas no processo de extracção e engarrafamento são misturados com compostos sulfurosos de cheiro intenso.

O metano não é de forma alguma tóxico e não se morre por se o respirar. No entanto é um poderoso agente de efeito de estufa, 23 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono (CO2). Já o butano comercial é tóxico quando respirado (os sintomas incluem sonolência, batimentos irregulares do coração e asfixia).

Mas então, se o metano não é tóxico e o butano tem um cheiro tão característico que qualquer um sente facilmente a sua presença e escapa para um local mais ventilado, que gás é esse que provoca essas mortes?
O gás em causa é o monóxido de carbono (CO) e este não é um gás que se liberte das botijas ou dos canos de gás natural. O monóxido de carbono é um gás que se forma quando há combustões de qualquer tipo em que o fornecimento de oxigénio é reduzido. Todos(?) sabemos que os animais inspiram oxigénio e expiram dióxido de carbono. O dióxido de carbono é constituído por um átomo de oxigénio e dois de carbono.

Como já visto brevemente no artigo Adipi carbo, uma vez que o carbono tem geralmente 4 átomos de valência e o oxigénio tem geralmente 6 átomos de valência (e como a forma estável de qualquer átomo é ter 8 átomos de valência) numa combustão normal os 4 electrões do carbono são divididos, dois para um átomo de oxigénio (ficando este com oito) e os outros dois para o outro átomo de oxigénio (assim o carbono recebe dois electrões de um oxigénio e outros dois do outro oxigénio). Forma-se assim o dióxido de carbono (CO2).

Isso em condições normais. Em combustões com pouco oxigénio presente (ou muito carbono presente), um átomo de carbono liga-se a apenas um átomo de oxigénio, formando assim o monóxido de carbono. Mas como pode a ausência de um simples átomo tornar uma molécula que o nosso próprio corpo produz numa substância tão tóxica?

Para responder a isso é necessário compreender como o sangue transporta oxigénio e dióxido de carbono para e das células.

O sangue é composto de vários tipos de células, genericamente englobadas em 3 categorias:

~ os glóbulos brancos (que incluem os monócitos, neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos, monócitos, entre outros) conhecidos também como leucócitos (do grego «leukos» branco), encarregues de proteger o corpo de agentes perigosos;
Há cerca de 7 biliões, 7x1012 (entre 4 biliões e 11 biliões) de glóbulos brancos por litro de sangue.

~ as plaquetas sanguíneas ou trombócitos, responsáveis pela coagulação do sangue;
Há cerca de 300 biliões, 3x1014 (entre 150 biliões e 400 biliões) de plaquetas sanguínea por litro de sangue.

~ os glóbulos vermelhos ou eritrócitos (do grego «erythros» vermelho) responsáveis pelo transporte do oxigénio dos pulmões para as células e do dióxido de carbono produzido pelas células para os pulmões;
Há cerca de 5 mil biliões, 5x1015, de glóbulos vermelhos por litro de sangue;

Uma chamada de atenção para o facto de os biliões aqui usados serem os biliões europeus (1012) e não os biliões estado-unidenses (109).
5 000 000 000 000 é 5 biliões na Europa mas 5 triliões nos EUA.
(ver o artigo
Cardinando sobre a questão dos biliões-Europa e dos biliões-EUA)

E são os eritrócitos a razão pela qual o monóxido de carbono é venenoso.
Cada glóbulo vermelho é principalmente constituído por hemoglobina, uma substância que contém átomos de ferro (no total de todos os eritrócitos do corpo humano, há aproximadamente 4 gramas de ferro dos 5 gramas que tem todo o corpo). São esses átomos que conseguem capturar os átomos de oxigénio e libertá-los depois nas células e conseguem em seguida capturar o dióxido de carbono e libertá-lo nos pulmões. As ligações que prendem quer o oxigénio quer o dióxido de carbono aos átomos de ferro são fracas, permitindo a sua fácil libertação.

Mas o monóxido de carbono interage de forma diferente com a hemoglobina do sangue: liga-se de forma permanente (graças ao comentário de «Nox», é na verdade 220 vezes superior à ligação do oxigénio). Quando os glóbulos vermelhos entram em contacto com monóxido de carbono nos pulmões, não conseguem libertá-lo. Enquanto esses glóbulos vermelhos existirem não têm mais a capacidade de transportar oxigénio às células e cada glóbulo vermelho vive aproximadamente 120 dias (cerca de 4 meses)...

As principais fontes de monóxido de carbono na vida diária das pessoas são os veículos automóveis de combustãos interna (os movidos a gasolina, gasóleo, diesel,...); os esquentadores das casas (quando há uma insuficiente ventilação interna do aparelho) e também do fumo do cigarros (ver Fumare salutem para mais sobre esta peste social).

Uma única molécula de monóxido de carbono não é perigosa (apenas incapacita um glóbulo vermelho); 100 moléculas de monóxido de carbono não são perigosas (apenas incapacitam 100 glóbulos vermelhos). Mas cada eritrócito incapacitado é menos um transportador do oxigénio vital para as células e a quantidade de eritrócitos que podem estar bloqueados na corrente sanguínea sem risco de saúde é bastante pequena.

Se o ar que alguém respirar tiver uma percentagem de monóxio de carbono de:
~ 0,0035% - dores de cabeça e tonturas após 6 a 8 horas de exposição continuada;
~ 0,01% - dores de cabeça e tonturas após 2 a 3 horas de exposição continuada;
~ 0,04% - dores de cabeça mais fortes após 1 a 2 horas de exposição continuada;
~ 0,08% - tonturas, náuseas e convulsões em 45 minutos e perda de consciência em 2 horas;
~ 0,16% - tonturas, náuseas e convulsões em 20 minutos e morte em 2 horas contínuas;
~ 0,32% - tonturas, náuseas e dores de cabeça entre 5 e 10 minutos e morte em 30 minutos;
~ 0,64% - tonturas e dores de cabeça entre 1 e 2 minutos e morte em 20 minutos;
~ 1,28% - morte em menos de 3 minutos;

Além disso estudos recentes apontam para que a exposição ao monóxido de carbono reduza a esperança média de vida, por destruir o músculo cardíaco.
(Mais más notícias para quem é fumador, mas também para os mecânicos...)

Um adulto inspira, em média e em cada respiração, meio litro de ar (500 cm3), apesar dos pulmões conseguirem conter perto de 5 litros (500 cm3) de ar.
Bastam 1,28% x 0,5 = 0,0128 x 0,5 = 0,0064 litros (6,4 cm3) de monóxido de carbono para nos matar em menos de 3 minutos!

Ora o monóxido de carbono tem outras características que, a par com a sua extrema toxicidade, o tornam um terrível assassino doméstico.
(a palavra assassino surgiu primeiramente associado a um grupo muçulmano que, na altura das cruzadas, jurou expulsar os invasores cristãos. Para adquirirem uma coragem cega e uma violência suicida consomiam grandes quantidades de haxixe. Eram por isso conhecidos como os «hashashin», os consumidores de haxixe. A palavra foi depois incorporada na Inglaterra do século XVII como «assassin», significando alguém que mata outra pessoa, por qualquer razão).

A razão porque as pessoas morrem nas suas casas devido ao monóxido de carbono, ou dentro de veículos com as janelas fechadas, não é porque estejam desatentas e não sintam o cheiro a gás. É simplesmente porque:
O monóxido de carbono não tem cheiro e não tem cor!

Não se vê, nem se sente. A única coisa que se pode fazer é, quando se sente alguma tontura ou dor de cabeça, num carro a trabalhar parado dentro de um espaço fechado ou dentro de casa (onde, como bem lembrado por «Maria Papoila», há também «as lareiras e os fogões a lenha em cozinhas fechadas») imediatamente abrir uma janela ou a porta da rua e em seguida verificar se alguma fonte de combustão em casa que possa estar a originar a libertação de monóxido de carbono. Essa simples cautela pode salvar a vida a quem morre vítima deste assassino silencioso, um verdadeiro ninja na «arte» da invisibilidade e mortalidade.
Segundo a Direcção-Geral de Geologia e Energia, «em Portugal, entre 1995 e 2003, ocorreram 268 mortes por efeito tóxico do monóxido de carbono, o que corresponde a quase 30 mortes por ano

Em baixo, a fotografia da concentração de monóxido de carbono na atmosfera terrestre, tirada pelo satélite da NASA Terra, em dois momentos do ano 2000.
Chama-se a atenção para o facto de que, nas imagens, o azul é a ausência de monóxido de carbono detectável de órbita, vermelho é valores intermédios e quanto mais claro maior a concentração de monóxido de carbono.



Publicado por Mauro Maia às 16:28
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