Hoje é um dos mais estranhos dias do ano: um dia que se comemora mas para o qual não há comemoração, um dia que alguns calendários referem mas que não é feriado, um dia que outros calendários não referem mas que todos sabem que dia é, um dia em que a verdade é vista como mentira e que a mentira se torna a verdade do dia, um dia em que as mais sérias pessoas são sujeitas a tentativas mais ou menos pueris de enganos e falsificações, um dia que é a incorporada antítese do Cognosco mas que simultaneamente tem um lugar no seu único coração.
Falo, claro está, do Dia das Mentiras.
As origens deste dia são incertas mas, como se calhar não podia deixar de ser, a mais divulgada história sobre ela (a origem) ou sobre ele (o dia) poderá não passar de um elaborado-mas-curioso-de-ouvir embuste. Essa provavelmente falsa origem do dia das mentiras liga peixes franceses à mudança do calendário juliano para o gregoriano (ver Um quarto para quarto sobre esta transição e o aparecimento dos anos bissextos):
No início do século XVI o primeiro dia do ano era comemorado a 25 de Março, aquando dos primeiros sinais da Primavera. Esta altura era comemorada com troca de presentes e jantares durante a semana que acabava nesse dia. Em 1564, aquando das alterações introduzidas pelo novo calendário gregoriano (aqui começará o embuste, o calendário gregoriano foi adoptado em 1582), o rei francês Charles IX (1550-1574), filho de Henri II da França e da famosíssima Catarina de Médicis, decretou a mudança do primeiro dia do ano para o dia 1 de Janeiro. A França tornou-se assim o primeiro país a adoptar o novo calendário, só depois seguido pelos outros países europeus.Charles IX era avô de Marguerite de Valois, a quase-rainha-de-Portugal-se-tivese-casado-com-D.Sebastião, e de que se falou em Fumare salutem pela sua indirecta ligação à introdução do tabaco na Europa vindo de Portugal.
Mas muitos franceses ou não apreciaram a mudança ou estavam com o hábito muito enraizado de festejarem a 1 de Abril o início do ano. Dessa forma continuaram a celebrar o primeiro dia do ano nesta data, tornando-se o alvo fácil da gozação dos compatriotas mais ajustados. Nesta data estes franceses de espírito mais leve enviavam aos distraídos-ou-relutantes-a-aceitar-o-novo-calendário franceses falsas prendas, como por exemplo peixes.
Esta oferta piscícola pode ter ligações ao facto de haver, nessa altura primaveril, peixes ainda jovens e inexperientes (e como tal facilmente ludibriados e capturados). Parece-me, a título meramente pessoal, que oferecer um embrulho com um peixe fresco, nessa altura em que não havia frigoríficos, era uma prenda desagradavelmente odorífera e como tal apropriada a partidas de mau gosto (equivalente às bombas de mau cheiro que agora se usam no Canaval). Eram os poisson d'avril «peixes de Abril» (ainda hoje é usual, em França e também na Itália, procurar colocar um peixe de papel nas costas de insuspeitas pessoas). Uma história curiosa, talvez até demasiado curiosa. Até porque há registos de anedotas relacionadas com o Dia das Mentiras a 1 de Abril em 1508 (perto de 60 anos antes desta «história» e perto de 50 anos antes da mudança de calendário) e, além disso, a tradição dos Dia das Mentiras era comum a toda a Europa nessa altura já.
Por exemplo, para os Holandeses, o dia 1 de Abril é celebrado como um dia de vitória e de ridicularização dos vencidos: em 1572 a Holanda estava sob domínio espanhol, às mãos de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal, por ser tio do desaparecido-em-Alcácer-Quibir-mas-ainda-aguardado(?)-D.Sebastião). A Guerra dos 80 anos (1568-1648) tinha começado há 4 anos, em que os Holandeses procuravam libertar-se de Filipe II e apoiar William of Orange. Havia um grupo de resistentes ao domínio espanhol, de nome Watergeuzen. No dia 1 de Abril desse ano tomaram uma pequena povoação costeira de nome Den Briel. Este acto foi o início de uma revolta generalizada pelo país e o General Alva, do exército espanhol, nada pode fazer. Em parte devido à semelhança fonética entre Briel e a palavra «bril» (óculos), ainda hoje neste dia de libertação os Holandeses referem-se a 1 de Abril como «O dia em que Alva perdeu os óculos», uma piada nacional de repurcussões históricas (um pouco como se, em Portugal, se chamasse ao 25 de Abril «o Dia em que Marcelo ficou com alergia a cravos»...)Foi durante o reinado de Filipe II de Espanha que algumas ilhas no Pacífico foram conquistadas e nomeadas em sua honra: as Filipinas.Cada país europeu terá as suas razões para «comemorar» este dia, tendo havido uma evolução convergente que ligou essas razões ao dia 1 de Abril.Mas, fazendo algo que não aprecio muito mas se ajusta bem aqui, cito Mark Twain:
O dia 1 de Abril é o dia em que somos lembrados de como somos nos restantes 364 dias do ano.
Para mim isto é duplamente verdade...E agora mais uma partida apropriada ao dia, na qual o enganador se torna o enganado:
A 1 de Abril de 1776 nasceu Sophie Germain (1776-1831), uma das mais importantes matemáticas que já cruzou os anais da História.Foi a primeira mulher a assistir às sessões da Academie des Sciences por pleno direito e não por ser mulher de um membro da Academia e a primeira mulher a ser convidada a assistir às sessões do Institut de France.Sophie foi uma auto-didacta, que aprendeu sozinha Matemática, Latim e Grego (para ler as obras originais matemáticas).Diz-se que Sophie se interessou pela Matemática quando, para a proteger dos motins da Revolução Francesa, os pais a impediram de sair de casa com 13 anos. A sua única fonte de distracção era a biblioteca do pai, onde leu a história de Arquimedes. Após saber que este tinha sido morto por um soldado romano que não gostou de ser ignorado por um senhor que fazia figuras geométricas na praia, decidiu devotar-se a um assunto que seria tão interessante a ponto de prender de tal forma a atenção de alguém.Quis estudar Matemática mas os pais não deixaram.Quis estudar em casa e os pais não deixaram.Estudava à noite Matemática e os pais retiraram-lhe as velas (para não poder ler) e as roupas (para que não pudesse esconder os livros). Mas Sophie arranjou sempre formas de esconder livros e velas e estudar Matemática.Finalmente os pais cederam perante uma tal vontade de estudar Matemática. Usando o pseudónimo de Monsieur le Blanc trocou correspondência sobre Matemática com professores da École Polytechnique, a mais avançada na altura.O mais conhecido foi Lagrange que, só após muitos anos, descobriu que se correspondia com uma mulher mas a profundidade profícua do seu pensamento matemático levou-o a continuar a correspondência, apesar de ter sido iniciada com base num engano. Também com o famoso matemático alemão Gauss Sophie trocou correspondência como M. le Blanc. Só ao fim de 3 anos Gauss descobriu que o seu genial correspondente era uma mulher.E qual a relevância desta questão, perguntarão os mais curiosos?~ O seu nome significa o que procuro e considero mais precioso: sabedoria (em grego);~ Nasceu exactamente 200 anos antes de 1 de Abril de 1976 (faz hoje uns redondos 230);~ A Mulher e a Matemática são duas das mais belas coisas do Mundo. Combinadas então...