Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 1 de Janeiro de 2006
Curiosulus
Uma nova página abre-se então neste primeiro dia do ano de 2006 no Cognosco.
Recém chegado, ainda de espírito leve e a um dia do recomeço das actividades profissionais, sentei-me à frente do computador que não via há 15 dias. O número de visitas e desejos de boas festas aqueceram-me o coração.

É então hora de recuperar o fôlego e a energia, de reconquistar o ânimo e a imaginação para procurar alcançar a fasquia a que o Cognosco se tem proposto ao longo destes 10 meses e 14 dias. E cada passo falhado é um novo passo mais seguro.

Para quebrar então o entorpecimento dos dedos que quinze dias de inactividade provocaram e, uma vez que o cansaço impede outros de natureza mais profunda, eis um artigo leve. É uma pequena curiosidade que me ocorreu nestas férias (e que não requere uma análise mais profunda e demorada).

Recordei-me então de uma adivinha dos meus tempos de infância:
«Qual é a coisa, qual é ela, que antes de ser já era?»
(devo dizer que as adivinhas fascinam-me de uma forma que os provérbios não fazem, como expressei no artigo Provérbios e adivinhas)

A resposta a esta adivinha é a pescada:
antes da pescada (o peixe) ser pescada (o verbo pescar) já era pescada.
Foi uma adivinha que marcou a minha meninice. As reviravoltas de sentidos, a ubiquidade do termo «pescada» simultaneamente peixe e verbo fez-me compreender a profundidade das camadas de beleza da língua portuguesa.

Mas na verdade, ponderando um pouco, chega-se à conclusão que esta adivinha permite várias soluções igualmente válidas e curiosas:

• o vestido já é vestido (a peça de roupa) antes de ser vestido (verbo).
• a comida já é comida (a parte sólida da refeição) antes de ser comida (verbo).
• a bebida já é bebida (a parte líquida da refeição) antes de ser bebida (verbo).
• o dado já é dado (o cubo com fins lúdicos) antes de ser dado (verbo).

Não me ocorrem, para já, outras soluções válidas.
(Se a algum dos muito criativos leitores do Cognosco ocorrer mais alguma, peço que a refiram)

Uma outra curiosidade ligada às palavras do muito belíssimo Português é as palavras masculinas terminadas em «a».
A regra geral é que palavras masculinas terminam em «o» e que palavras femininas terminam em «a».

Há, no entanto, excepções. A maioria envolve terminações em letras que não as supracitadas a» ou «o». (luar; mente; mais; ...)
Também como regra geral, perante um grupo de mil mulheres e um homem, tem de se usar a forma masculina na referência ao grupo.
(Uma grande amiga minha «amiga da sabedoria» tem uma visão sui generis sobre esta situação: o masculino é o sexo neutro em Português, por isso se emprega para grupo contendo ambos os sexos. É um curioso olhar feminista sobre a questão).

Mas a questão que pretendo aqui expôr é a das palavras que, sendo masculinas, escaparam ao crivo machista que por tantos séculos dominou a cultura portuguesa (por inerência do machismo da civilização ocidental). São palavras masculinas que terminam em «a». Alguns exemplos incluem:

• o cinema;
• o poeta;
• o poema;
• o dilema;
• o diadema;
• o cientista;
• o tema;
• o conviva;
• o dia;
• o enigma;
• o motorista;
• o camionista;
• o problema;
(recentemente adicionado graças ao comentário de PN)

Curiosamente ocorreram-me, nas férias, as 7 primeiras palavras. Assim que me sentei para escrever este artigo ocorreram-me outras 5. E de certeza há ainda mais do que esta modesta lista. Mais uma vez deixo o repto, a quem esta questão intrigar, que deixe as suas sugestões para palavras masculinas que terminam em «a».


Houve outras curiosidades ligadas a algumas excepções na língua portuguesa:
• Paridades sobre porque itens singulares, como as calças, serem referidos no plural;
• Inclusivas sobre um tipo de palavras que se auto-referem;
Excepções sobre o próprio conceito de excepção;)


Publicado por Mauro Maia às 21:23
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