Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 4 de Outubro de 2005
Animal fortissimus
Viviam numa floresta longínqua muitos animais, alguns pequenos outros grandes, alguns fortes outros fracos, alguns bons outros maus;

Nessa floresta vivia uma pequena formiga que era admirada por todos: apesar do seu tamanho era muito veloz e forte. Todos admiravam a força com que a formiga superava pedras maiores do que ela ou subia a árvores maiores do que todos.

E vivia também um elefante que era motivo de pena de muitos e desprezo de outros: o elefante tinha nascido com problemas nas suas pernas direitas. Tinha dificuldade a andar, cada passo era uma tortura, mal conseguia acompanhar até a mais pequena cria nas suas andanças pela floresta. E os outros animais comentavam «É tão grande e forte e tem problemas a andar. Coitado.»

Um dia uma cria de passarinho caiu do alto do seu ninho.
O elefante, assim que viu a cria cair, apressou-se a dar o alarme e encaminhou-se para a salvar. Mas caminhava com tanta dificuldade que, assim que chegou, já a formiga tinha chegado e puxado o passarinho árvore acima até ao ninho.

Quando o elefante finalmente chegou todos os animais davam os parabéns à formiga pela forma rápida com que acorreu e pela facilidade com que puxou a ave até ao ninho.
Ao elefante ninguém dirigiu a palavra nem agradeceu o alarme que deu.
Só pensaram como tinha chegado tão tarde o elefante, tão depois de todos os outros.
A ninguém ocorreu que foi a humilde atenção do elefante que percebeu a aflição da cria.
«Não faz mal, já estou habituado. Felizmente salvou-se a cria, é o que importa.» pensou o elefante.

Os dias passaram. Um dia caminhava a custo o elefante pela margem do rio quando ouviu um pedido de socorro. Era a formiga que se debatia no meio do rio para não se afogar.
O elefante deu o sinal de alarme e dirigiu-se com vagar à água.
Antes de se meter no rio hesitou: as suas pobres pernas, que mal o sustentavam em terra, não conseguiriam fazê-lo nadar. Podia-se afogar se entrasse. Mas vendo a formiga tão aflita decidiu-se e entrou. Com dificuldade deu às pernas, lentamente foi-se afastando da margem, dolorasamente chegou à formiga que se debatia. Com a tromba recolheu-a e penosamente nadou para terra.

Assim que chegou à margem já os animais todos tinham chegado e imediatamente rodearam a formiga. Com grandes gestos todos manifestaram o seu apreço por ela estar bem e comentaram como devia estar forte a corrente, que até a formiga tão forte tinha levado. Ninguém falou ao elefante, ninguém lhe deu os parabéns pelo salvamento.
O elefante, vagarosa e penosamente, afastou-se do local, assim que percebeu que a formiga estava bem. «Não faz mal, já estou habituado. Felizmente salvou-se a formiga, é o que importa.» pensou o elefante.

A sua saída passou despercebida à maioria dos animais.
Mas o velho mocho, que tudo observava do topo de uma árvore próxima, viu mais do que os outros: «Todos comentam como está forte a corrente e a ninguém passou pela cabeça a tremenda força de carácter que levou a que o elefante, com tantas dificuldades a andar, se lançasse à água tumultuosa e salvasse a formiga. Este animal é verdadeiramente o animal mais forte da floresta: apesar das suas debilidades não só faz tudo quanto os outros fazem como é corajoso e coloca a segurança dos outros à sua frente.
A formiga nada supera, limita-se a ser o que já é, nunca supera desafios. Tudo é fácil.
Mas o elefante tudo supera, constantemente é mais do que aquilo que já é, tudo é um desafio que ele vence.
Quem é o verdadeiro forte, quem podendo faz ou quem não podendo consegue?
Eu valorizo mais o segundo.»
Levantou vôo e voou até ao elefante.

Não lhe deu os parabéns, que heróis a sério não precisam.
Mas o seu gesto de afecto, voar até ao elefante e falar com ele, aqueceram-lhe o seu grande coração como nem mil fogueiras conseguiriam.

Desde esse dia o mocho tornou-se o melhor amigo do animal mais forte da floresta.


Publicado por Mauro Maia às 22:27
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005
Apolo não favoreceu Aristóteles
É ainda muito comum a noção de que objectos mais pesados caem mais rápido do que objectos mais leves. É uma noção intuitiva a que geralmente nem prestamos atenção no nosso dia-a-dia. Uma boa forma de testarmos a profundidade a que está enraizada essa noção na nossa mente puderá passar por pensarmos nesta simples questão que me colocaram era eu ainda criança: «O que pesa mais, um quilo de ferro ou um quilo de algodão?».
Lembro-me de ter ficado inquieto por esta pergunta:
~ por um lado um quilo é sempre um quilo, não interessa a substância. Seria o mesmo que perguntar: «O que é mais alto, uma girafa com um metro ou uma formiga com um metro?»
~ por outro lado tinha a noção intuitiva de que o ferro pesava mais do que o algodão.

AristótelesEsta noção de que os objectos têm uma qualidade intrínseca e absoluta chamada peso, que há objectos pesados e objectos leves e que os primeiros caem mais rapidamente do que os segundos foi introduzida por Aristóteles e foi perpetuada durante a Idade Média europeia.
Na Grécia clássica várias escolas de pensamento degladiavam-se nas arenas do pensamento filosófico. Vários eram os temas que se propunham estudar. Algumas delas centravam-se na constituição da matéria.
Uma das escolas de pensamento era a dos Atomistas, liderada por Demócrito, que defendia que todas as coisas era formadas pelas mesmas substâncias indivisíveis («atom» em grego). A razão porque eram as coisas diferentes entre si vinha das diferentes proporções dos consituinte básicos. Mas a teoria assentava sobre bases instáveis pois não havia como provar a existência desses átomos.
Aristóteles, cuja filosofia assentava sobre bases estrictamente pragmáticas, não teve dificuldade em colocar tamanhos entraves teóricos (para a ciência da altura) que a teoria foi abandonada e desacreditada. Hoje sabemos que é uma das teorias mais precisas em relação ao nosso conhecimento moderno que nos chegaram dos antigos gregos.
Durante séculos a ciência aristotélica foi ensinada e repetida sem contestação. Era óbvio que coisas mais pesadas caíam mais rápido do que as leves e ponto final durante mil anos.

GalileuMas então surgiu Galileu, o pai da ciência moderna. Também ele era, como Aristóteles, um pragmático que apenas aceitava conclusões tiradas de uma experiência e não de uma qualquer autoridade. Uma das coisas (entre as muitas que nos deu) que investigou foi esta assumpção de que objectos mais pesados caem mais rápido do que os leves, e de que um objecto que pese o dobro de outro cai duas vezes mais depressa. A lenda reza que Galileu realizou as suas experiências largando, do topo da Torre Inclinada de Pisa, bolas de metal com pesos diferentes e registando que chegavam ao solo ao mesmo tempo.
A verdade foi bem diferente. Galileu usou planos inclinados e esferas, medindo a velocidade a que deslizavam pelo plano abaixo quando libertadas.
Constatou então que objectos com pesos diferentes caiam com a mesma velocidade.
A diferença que se constatava entre a queda, por exemplo, de um folha e de uma pedra, era devida à resistência do ar. No vácuo ou num corpo celeste sem atmosfera papel, algodão, ferro, rochas,... todos os corpos caem à mesma velocidade e atingem o solo ao mesmo tempo.

Fim da história? Não! Ainda hoje muitos têm esta noção errada.
De tal forma que, quando a missão Apolo 15 foi lançada, a 26 de Julho de 1971, levava a bordo uma ideia para comprovar aos mais renitentes em aceitar a conclusão de Galileu a sua validade. O que se segue são as imagens captadas na Lua quando a experiência foi realizada. A qualidade do vídeo não é das melhores mas é perceptível.
(A itálico está a tradução das palavras do astronauta)

Na minha mão esquerda tenho uma pena, na minha mão direita um martelo. Eu acho que uma das razões por que estamos aqui hoje é por causa de um senhor chamado Galileu que viveu há muito tempo e que fez uma descoberta bastante importante acerca de objectos em queda e campos gravitacionais. E nós pensámos «Que lugar podia ser melhor para confirmar as suas descobertas do que na Lua?» E portanto achámos que a tentaríamos aqui para vocês. E acontece que a pena é apropriadamente uma pena de falcão, pela nossa «Falcon». Vamos agora deixá-los cair aqui e esperamos que atinjam o solo ao mesmo tempo.
...
E esta? O senhor Galileu estava correcto... nas suas descobertas!


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<img src="http://cognoscomm.com/mm/BounceBall.gif" wight="32" width="32" align="left" border="0" />É ainda muito comum a noção de que objectos mais pesados caem mais rápido do que objectos mais leves. É uma noção intuitiva a que geralmente nem prestamos atenção no nosso dia-a-dia. Uma boa forma de testarmos a profundidade a que está enraizada essa noção na nossa mente puderá passar por pensarmos nesta simples questão que me colocaram era eu ainda criança: «O que pesa mais, um quilo de ferro ou um quilo de algodão?».
Lembro-me de ter ficado inquieto por esta pergunta:
~ por um lado um quilo é sempre um quilo, não interessa a substância. Seria o mesmo que perguntar: «O que é mais alto, uma girafa com um metro ou uma formiga com um metro?»
~ por outro lado tinha a noção intuitiva de que o ferro pesava mais do que o algodão.

<img alt="Aristóteles" src="http://cognoscomm.com/mm/Aristoteles.jpg" height="100" width="79" align="left" border="0" />Esta noção de que os objectos têm uma qualidade intrínseca e absoluta chamada peso, que há objectos pesados e objectos leves e que os primeiros caem mais rapidamente do que os segundos foi introduzida por Aristóteles e foi perpetuada durante a Idade Média europeia.
Na Grécia clássica várias escolas de pensamento degladiavam-se nas arenas do pensamento filosófico. Vários eram os temas que se propunham estudar. Algumas delas centravam-se na constituição da matéria.
Uma das escolas de pensamento era a dos Atomistas, liderada por Demócrito, que defendia que todas as coisas era formadas pelas mesmas substâncias indivisíveis («atom» em grego). A razão porque eram as coisas diferentes entre si vinha das diferentes proporções dos consituinte básicos. Mas a teoria assentava sobre bases instáveis pois não havia como provar a existência desses átomos.
Aristóteles, cuja filosofia assentava sobre bases estrictamente pragmáticas, não teve dificuldade em colocar tamanhos entraves teóricos (para a ciência da altura) que a teoria foi abandonada e desacreditada. Hoje sabemos que é uma das teorias mais precisas em relação ao nosso conhecimento moderno que nos chegaram dos antigos gregos.
Durante séculos a ciência aristotélica foi ensinada e repetida sem contestação. Era óbvio que coisas mais pesadas caíam mais rápido do que as leves e ponto final durante mil anos.

<img alt="Galileu" src="http://cognoscomm.com/mm/Galileu.jpg" height="100" width="71" align="left" border="0" />Mas então surgiu Galileu, o pai da ciência moderna. Também ele era, como Aristóteles, um pragmático que apenas aceitava conclusões tiradas de uma experiência e não de uma qualquer autoridade. Uma das coisas (entre as muitas que nos deu) que investigou foi esta assumpção de que objectos mais pesados caem mais rápido do que os leves, e de que um objecto que pese o dobro de outro cai duas vezes mais depressa. A lenda reza que Galileu realizou as suas experiências largando, do topo da Torre Inclinada de Pisa, bolas de metal com pesos diferentes e registando que chegavam ao solo ao mesmo tempo.
A verdade foi bem diferente. Galileu usou planos inclinados e esferas, medindo a velocidade a que deslizavam pelo plano abaixo quando libertadas.
Constatou então que objectos com pesos diferentes caiam com a mesma velocidade.
A diferença que se constatava entre a queda, por exemplo, de um folha e de uma pedra, era devida à resistência do ar. No vácuo ou num corpo celeste sem atmosfera papel, algodão, ferro, rochas,... todos os corpos caem à mesma velocidade e atingem o solo ao mesmo tempo.

Fim da história? Não! Ainda hoje muitos têm esta noção errada.
De tal forma que, quando a missão Apolo 15 foi lançada, a 26 de Julho de 1971, levava a bordo uma ideia para comprovar aos mais renitentes em aceitar a conclusão de Galileu a sua validade. O que se segue são as imagens captadas na Lua quando a experiência foi realizada. A qualidade do vídeo não é das melhores mas é perceptível.
(<code>A itálico está a tradução das palavras do astronauta</code>)
<embed src="https://imgs.sapo.pt/sapovideo/swf/flvplayer-sapo.swf?file=https://rd3.videos.sapo.pt/qz6GSzMMTzBSBmTrOuo1/mov/1" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" wmode="transparent"></embed>
<i>Na minha mão esquerda tenho uma pena, na minha mão direita um martelo. Eu acho que uma das razões por que estamos aqui hoje é por causa de um senhor chamado Galileu que viveu há muito tempo e que fez uma descoberta bastante importante acerca de objectos em queda e campos gravitacionais. E nós pensámos «Que lugar podia ser melhor para confirmar as suas descobertas do que na Lua?» E portanto achámos que a tentaríamos aqui para vocês. E acontece que a pena é apropriadamente uma pena de falcão, pela nossa «Falcon». Vamos agora deixá-los cair aqui e esperamos que atinjam o solo ao mesmo tempo.
...
E esta? O senhor Galileu estava correcto... nas suas descobertas!</i>

<img "A Apolo XV na Lua" src="http://cognoscomm.com/mm/Apolo15falcon.jpg" height="75" width="100" align="right" border="0" />A referência que se faz ao facto de ser apropriada uma pena de <u>falcão</u> (falcon em inglês) para a experiência prende-se com o nome do módulo lunar com que os astronautas «alunaram», Falcon.
Por mera curiosidade, o «jipe lunar» estacionado ao lado do astronauta custou 15 milhões de dólares (sensivelmente mais de 3 milhões de contos). Após a missão ter terminado (alunaram a 30 de Julho e regressaram a 7 Agosto) o jipe foi lá deixado...

&#8776 Ver <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/525932.html" rel="noopener"><font color="blue">Ao contrário da crença popular (Luna)</font></a> sobre as missões à Lua ;
&#8776 Ver <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/628213.html" rel="noopener"><font color="blue">Pulchra luna</font></a> sobre a formação da Lua;
&#8776 Ver <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/635733.html" rel="noopener"><font color="blue">Eu autem convertet</font></a> sobre o lado oculto da Lua;
&#8776 Ver <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/673093.html" rel="noopener"><font color="blue">Deliquiis Lunae</font></a> sobre como pode a Lua tapar o Sol num eclipse;


Publicado por Mauro Maia às 22:14
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