Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 6 de Novembro de 2005
circa Trientes Insulae

Uma dúvida que persiste e geralmente recebe como resposta um lugar comum velho, desactualizado e incorrecto é
a origem do nome do Arquipélago dos Açores.
~ Então não se chama Açores porque há lá muitos açores, a ave?A resposta comum e repetida sem profundidade analítica é a de que o nome deriva das aves de rapina de nome açor que existiriam nas ilhas em grande número e que os navegadores avistaram quando lá chegaram.
Mas é necessário esclarecer várias questões quanto a esta resposta imediata e incorrecta quanto à origem do nome Açores.
A primeira é a de que
não há açores nos Açores (parece paradoxal mas é verdade). Nos
Açores há uma ave de rapina a que os açorianos dão o nome de
Milhafre ou
[
Error: Irreparable invalid markup ('<queimado</b>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]
<img alt="Bandeira dos Açores" src="http://cognoscomm.com/mm/AcoresBand.jpg" height="100" width="150" align="right" border="1" />Uma dúvida que persiste e geralmente recebe como resposta um lugar comum velho, desactualizado e incorrecto é
<b>a origem do nome do Arquipélago dos Açores</b>.
<i>~ Então não se chama Açores porque há lá muitos açores, a ave?</i>
A resposta comum e repetida sem profundidade analítica é a de que o nome deriva das aves de rapina de nome açor que existiriam nas ilhas em grande número e que os navegadores avistaram quando lá chegaram.
Mas é necessário esclarecer várias questões quanto a esta resposta imediata e incorrecta quanto à origem do nome Açores.
A primeira é a de que <b>não há açores nos Açores</b> (parece paradoxal mas é verdade). Nos <a href="http://azores.itgo.com/Azores/acores.htm" target="_blank" rel="noopener"><font color="blue">Açores</font></a> há uma ave de rapina a que os açorianos dão o nome de <b>Milhafre</b> ou <Queimado</b> (que é o símbolo da região presente na sua bandeira autonómica).
<i>Agradeço ao <a href="http://basaltonegro.blogspot.com/2008/07/aores-ou-milhafres-s-queimados.html" target="_blank" rel="noopener"><font color="blue">Paulo</font></a> me ter indicado, na sua página, este outro nome açoriano para a ave.</i>
<u>Mas a ave açoriana não é nem um açor nem um milhafre.</u>
Para esclarecer bem esta questão dos não-milhafres e dos não-açores, aqui vão as espécies que, sendo parecidas, não são a mesma.
<img alt="Açor" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores-AccipiterGentilis(Acor).jpg" height="145" width="296" border="0" />
~ <i>Accipiter gentilis</i> - o <b>açor</b>, que só existe em Portugal continental acima do Tejo e é um residente permanente.
<img alt="Águia de asa redonda" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores-ButeoButeo(AguiaAsaRedonda).jpg" height="150" width="356" border="0" />
~ <i>Buteo buteo</i> - a <b>águia-asa-redonda</b>, que habita Portugal (continente e ilhas) e é cada vez mais rara. Tem como característica a cauda redonda.
~ <i><u>Buteo buteo rothschildi</i></u> - a ave a que chamam <b>«milhafre»</b> nos Açores mas que é uma subespécie de <i>águia-asa-redonda</i> (como tal é semelhante fisicamente).
<img alt="Gavião" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores-AccipiterNisus(Gaviao).jpg" height="151" width="294" border="0" />
~ <i>Accipiter nisus</i> - o <b>gavião</b>, que passa o Inverno em Portugal continental
<img alt="Milhafre Negro" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores-MilvusMigran(MilhafreNegro).jpg" height="118" width="259" border="0" />
~ <i>Milvus migrans</i> - o <b>milhafre negro</b>, que tem o corpo castanhanho, cauda forcada e não redonda e passa pelo interior continental português no Verão.
<img alt="Milhano" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores-MilvusMilvus(MilhafreReal).jpg" height="122" width="291" border="0" />
~ <i>Milvus milvus</i> - o <b>milhano</b> (ou <i>milhafre real</i>), que tem também a cauda forcada e existe o ano inteiro no continente português a norte do Tejo.
Tendo em conta as características físicas das diferentes espécies aqui apresentadas, parece de todo improvável que navegadores experientes, habituados a reconhecer no firmamento constelações e estrelas com as quais se orientavam, tenham confundido duas espécies de aves distintas, sendo ambas comuns nas suas terras de origem (tanto o açor como a águia-asa-redonda), sendo por isso do seu amplo (re)conhecimento.
A hipótese da confusão parece altamente improvável (até porque, se confundissem, teriam dado aos Açores o nome de Águias-Asas-Redondas). A incorrecção do milhafre por parte dos habitantes regionais (que data das primeiras colonizações) é mais compreensível, não tendo muito deles os anos de experiência de observação dos navegadores (que conheciam bem as aves que observavam nos céus, uma vez que as costumavam usar como pontos de referência para a presença de ilhas no mar alto).
<i>~ Mas então, se o nome não veio do pássaro, de onde veio?</i>
A mando do Infante D. Henrique (de quem era muito amigo), o cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador de Almorol <b>Gonçalo Velho Cabral</b>, descobriu os Ilhéus das Formigas em 1431 (no seguimento de um primeiro avistamento por Diogo de Silves em 1427) e em 1432 desembarcou nas Ilhas de Santa Maria (a primeira que viu) e São Miguel. Os Açores são constituidos por 9 ilhas divididas em 3 Grupos (Flores e Corvo no Ocidental, Graciosa, Terceira, São Jorge, Faial e Pico no Central e São Miguel e Santa Maria no Oriental) de uma beleza estonteante, cada irmã com o seu vestido debroado com padrões diferentes.
<img alt="Mapa dos Açores por Pierre de Sousa Lima 1999" src="http://cognoscomm.com/mm/Acores.jpg" height="404" width="556" border="0" />
<b>Gonçalo Velho Cabral</b>, que nomeou a ilhas que descobriu (menos o Corvo e as Flores, descobertas por Diogo de Teive), era devoto de Nossa Senhora do Açor, santa adorada numa pequena povoação situada em <b>Portugal continental</b>, na <b>Beira Alta</b>, concelho de <b>Celorico da Beira</b>, a freguesia dos <a href="http://www.cm-celoricodabeira.pt/concelho/freguesia01.asp" target="_blank" rel="noopener"><font color="blue">Açores</font></a>.
A esta padroeira da freguesia vários milagres são atribuidos («O Açor e o Pagem», «Aparecimento da Senhora ao Rústico da Vaca», «O Filho do Rei Resuscitado» e «Milagre da Batalha da Penhadeira»).
Gonçalo Velho Cabral era muito devoto da Nossa Senhora do Açor e, quando foi encarregue da viagem de exploração às ilhas avistadas por Diogo Silves, pediu a protecção à Virgem. Quando descobriu a primeira ilha deu-lhe o nome de <b>Santa Maria</b>, em agradecimento pela descoberta. Ao descobrir as outras ilhas, verificou que era um arquipélago e deu-lhe o nome de <b>Açores</b>, em honra da sua protectora.
<img alt="Nossa Senhora dos Açores - Beira Alta" src="http://cognoscomm.com/mm/IgrejaAcores.gif" height="500" width="500" border="0" />
<i>Açores é uma das povoações mais antigas da Beira Alta, assim o prova a lápide funerária visigótica epígrafada, do século VIII, que pode ser vista na Capela-mor da Igreja de Nossa Senhora do Açor, venerada pelos cavaleiros medievais do século XII e em cuja honra se celebra anualmente uma romaria no mês de Agosto.</i>
A questão da quantidade de aves que terá levado ao nomear do arquipélago parece também sem fundamento. A fauna das ilhas não tem sofrido <u>demasiado</u> com as alterações provocadas pelas pessoas (um dos encantos das ilhas açorianas é exactamente a sua natureza incorrupta e luxuriante) pelo que, havendo tal profusão de aves no século XV não seria de esperar uma extinção tão violenta que tivesse quase extinguido uma ave que seria tão abundante. Que os navegadores tenham avistado de facto açores em grandes quantidades (e que entretanto se extinguiram nestes 5 séculos) é claramente impossível. Os açores não são aves migratórias, pelo que nunca deixam o continente, enquanto que a águia-de-asa-redonda (o «milhafre» açoriano) é, pelo que podia ter sido arrastado por ventos fortes para o arquipélago, como tantas outras aves o foram.
A hipótese de os primeiros descobridores terem visto açores nas ilhas é <u>claramente errada</u>.
Que tenham confundido as aves com açores <u>altamente improvável</u>.
Que as aves eram em número suficiente para levar os navegadores a baptizar as ilhas com esse nome <u>muito difícil de aceitar</u>.
Que Gonçalo Velho Cabral tenha chamado o arquipélago de Açores devido ao nome da sua santa <u>claramente compreensível e possível</u>.
Já agora, e aproveitando o ensejo, eis as origens dos nomes das ilhas:
~ <b>Santa Maria</b> padroeira do descobridor Gonçalo Velho Cabral;
~ <b>São Miguel</b> em honra do santo;
~ <b>São Jorge</b> em honra de outro santo;
~ <b>Graciosa</b> pela vista que se obtinha dela;
~ <b>Pico</b> devido à sua elevada montanha (o ponto mais alto de Portugal, com 2 319m);
~ <b>Faial</b> estava coberto de densas matas de Faias, ainda hoje abundantes;
~ <b>Corvo</b> despertou especial atenção uma colónia de corvos marinhos de lá;
~ <b>Flores</b> é uma ilha particularmente florida;
~ <b>Terceira</b> por uma razão complexa que nada tem a ver com a ordem pela qual as ilhas foram descobertas. Aquando da descoberta do arquipélago já se conheciam os arquipélagos das Canárias e da Madeira. A novas ilhas eram então conhecidas como Ilhas Terceiras. Uma das ilhas mais importantes do arquipélago era a que continha o porto onde os barcos que faziam os descobrimentos portugueses aportavam para se abastecerem de cereais açorianos. Na altura o trigo era a principal cultura do arquipélago e alimentava os navegadores dos descobrimentos nas suas longas viagens. Como era nesta ilha que paravam sempre, os navegadores portugueses passaram de dizer que iam às Ilhas Terceiras para passar a dizer que iam à Ilha Terceira. Daí o nome que ficou.
(Acrescento agora uns pequenos reparos que me foram feitos, via e-mail, ao artigo por <a href="http://web.ipn.pt/literatura/danielsa.htm" target="_blank" rel="noopener"><font color="blue">Daniel de Sá</font></a>. Por lapso, e como se pode comprovar pelo mapa acima mostrado, a Horta foi incluida na origem dos nomes das ilhas açorianas. A Horta <b>não</b> é uma ilha açoriana, é uma cidade da ilha do Faial. Gonçalo Cabral Velho era devoto de Nossa Senhora do Açor, mas não se sabe com exactidão a sua origem. O nome da flor açoriana hortência deve-se a Hortense Lepaute, que descobriu o período do cometa Halley. A hortência só foi introduzida nos Açores no século XIX e a ilha das Flores deve o seu nome a outra flor, pequena e amarela, ainda por lá abundante. Agradeço-lhe os pequenos reparos e as correcções foram já integradas no artigo.)
O nome do descobridor do arquipélago dos Açores pode variar de acordo com as fontes usadas ou a sensibilidade de quem as lê. Há quem considere os descobridores dos Açores como o escudeiro de D. Henrique, <b>Diogo de Silves</b> e ainda <b>Diogo de Teive</b> (que descobriu as ilhas do Corvo e das Flores). Mas a importância de <b>Gonçalo Velho Cabral</b> para o estabelecimento português nos Açores é indiscutível.
Antes do povoamentro das ilhas mandou Gonçalo Velho Cabral, em 1432, introduzir gado miúdo. Após essa introdução, e tendo sido constatado que as ilhas eram seguras porque o gado sobreviveu, começou o povoamento das ilhas das quais foi o primeiro capitão-donatário (embora o povoamento sistemático só tenha começado alguns anos mais tarde - Santa Maria, em 1439, e São Miguel, em 1444).
«O Padre Gaspar Frutuoso, cronista micaelense da 2.ª metade do Século XVI, atribui o descobrimento das 7 ilhas dos Açores (ou seja, as ilhas dos Grupos Oriental e Central) a Gonçalo Velho Cabral. Actualmente, essa teoria é negada por alguns historiadores, que julgam que a ter descoberto alguma ilha do arquipélago, terão sido apenas as ilhas do Grupo Oriental.» (<i>Retirado de <font color=#666666>http://pt.wikipedia.org/wiki/Gon%C3%A7alo_Velho_Cabral</font></i>
Tenho de agradecer a valiosa ajuda de <a href="http://web.ipn.pt/literatura/danielsa.htm" target="_blank" rel="noopener"><font color="blue">Daniel de Sá</font></a>, que cuja companhia e espírito contagiante pude usufruir aquando da minha estada nos Açores, e que me despertou para este tão repetido e incorrecto lugar comum. Já num artigo anterior (<a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/572912.html" rel="noopener"><font color="blue">Bondade</font></a>) tive a oportunidade de o recordar, sem o nomear explicitamente.
<i>Há alguns dias decidi finalmente visitar uma página portuguesa que alguém já me tinha referido. Sendo portuguesa e declarando-se como uma página com a intenção de esclarecer dúvidas da Língua Portuguesa, pareceu-me relevante visitá-la.
Eis que, aberta a dita página (que não mencionarei explicitamente por razões que adiante serão entendidas), sou confrontado com uma dúvida colocada por uma leitor da página, perguntando a origem do topónimo Açores e o «esclarecimento» dado pela página.
Dizia então a supracitada página que o nome advinha da presença das aves de rapina da espécie açor que lá existiam quando os navegadores as descobriram. Daí tambem, indicam seguidamente, o gesto do futebolista Pauleta (de origem açoriana) quando marca golos.
Tal explicação é incorrecta por variadas razões, começando pelo facto de não haver açores nos Açores (apenas uma ave que lá apelidam de Milhafre e que é o símbolo da região). Como se viu o nome provém da santa de devoção do navegador que descobriu o arquipélago, Nossa Senhora do Açor (cujo culto é feito na vila dos Açores, na Beira Alta). Tem a imagem desta santa 2 açores, um em cada ombro.
Fiz-lhe estes esclarecimentos e recebi, um dia ou dois depois, uma resposta provinda dos autores da dita página, dizendo para estar atento aos dias seguintes. Eis que a vou consultar e deparo com um «esclarecimento» mais velho do que as avós de muitos de nós: nos Açores há milhafres e os navegadores foram induzidos em erro na determinação da espécie, chamando-lhes Açores. Nem uma menção a uma origem ligada ao descobridor, nem a uma santa. Fizeram </i>tabula rasa<i> das informações que lhes prestei. Esta atitude destoa num </i>sítio<i> que tem como objectivo esclarecer e combater lugares comuns. Persistir na verosimilhança e na parecença, sem aprofundar as questões que lhes são levantadas em vez de procurar a veracidade, mantendo-se na repetição do que se ouve dizer em vez do que é de facto não abona <b>nada</b> em favor de uma página que de esclarecimentos tem pouco e que de lugares comuns e pesquisas superficiais parece ter mais.
No título «acerca das Ilhas Terceiras».</i>
Sábado, 5 de Novembro de 2005
Or in igne
São usadas, na culinária, algumas substâncias que provocam ardor na boca e no estômago quando ingeridas. A pimenta, as malaguetas, o piri-piri são alguns dos exemplos mais usados na cozinha portuguesa. Mas como funcionam, o porquê desse ardor e em especial como o eliminar são questões a que a maioria das pessoas não saberá responder.
Que são as três de origem vegetal é óbvio pela sua aparência.

~ A
pimenta pertence à família
Piperaceae, género
piper, que inclui mais de 1 000 espécies de arbustos e de lianas. É uma espécie que dá flor e que é extremamente resistente e domina os ambientes naturais em que se encontra. A pimenta preta é um pó feito com a baga da espécie
Piper nigrum depois de seca (obtém-se a pimenta branca quando a baga é removida e apenas a semente é triturada).


~ As
malaguetas e o
piri-piri pertencem à família
Solanaceae, género
Capsicum. As malaguetas são da espécie
annuum e o piri-piri da espécie
frutescens.
O
piri-piri é de origem africana e foi incorporada na culinária portuguesa no nosso passado colonial e é a mais picante espécie do género
Capsicum (o seu nome em inglês, para se ter uma noção da qualidade picante, é
African devil «demónio africano»).
O picante da
pimenta é devido à
piperina, substância presente quer na baga quer na semente da Piper nigrum, e o da
malagueta e do seu primo
piri-piri é conferido pela
capsaicina.

A
capsaicina irrita os nervos que transmitem as sensações de dor da boca para o cérebro, o nervo trigeminal (
trigeminal porque três nervos se juntam a caminho do cérebro, o nervo óptico, o nervo maximal e o nervo mandibular. A ligação destes três explica a razão pela qual os nossos olhos involuntariamente se fecham quando provamos algo de sabor muito amargo ou ácido) enquanto a
piperina irrita as papilas gustativas.
Os nervos trigeminais não são plenamente activados (se fossem não se sentia «a boca a arder», sentia-se «a boca a doer») mas a irritação é transmitida ao cérebro. Há receptores de dor ligados a este nervo na boca, no nariz e no estômago. Quando são activados libertam uma substância neurotransmissora que informa o cérebro de dor ou de inflamações na pele.
O consumo continuado da capsaicina destrói aos poucos esses receptores de dor, razão pela qual as pessoas desenvolvem tolerância progressiva aos picantes com o consumo continuado e podem ingerir substâncias progressivamente mais picantes.Não são mais «fortes» do que os outros por conseguirem comer coisas extremamente picantes, têm é os nervos receptores trigeminais destruídos (o que não me parece uma boa ideia).
Além desses receptores trigeminais (sensíveis à dor, ao toque e à temperatura) há também as papilas gustativas (sensíveis aos sabor). Estas são também afectadas por estas substâncias mas não são destruídas. Mesmo que fiquem hiper-sensibilizadas, as papilas gustativas são substituidas de 2 em 2 semanas. As papilas encontram-se presentes em todo o lado dentro da boca, apesar de geralmente só serem pensadas presentes na língua. Os picantes afectam principalmente o topo das papilas gustativas (a base das papilas gustativas é mais sensível aos sabores amargos).
Alguns estudos já foram realizados em relação à desensabilização das papilas gustativas pelos picantes que referiram que, quem consome produtos picantes regularmente, tem uma premanente desensabilização das papilas gustativas e os sabores são afectados. Mas o consumo moderado de picantes revelou ter permitido às pessoas envolvidas no estudo uma maior percepção de sabores que antes não percepcionavam.
Talvez então haja uma justificação para o uso de picantes para realçar o sabor da comida... (para quem aprecie, claro).

Para acalmar o ardor provocado pelos picantes , a maioria das pessoas ingere água, algo relacionado com a imagem de «a boca a arder». No entanto beber água
não é o método mais eficaz para retirar o picante das papilas gustativas (e, como quem já provou algum picante sem a ele estar habituado sabe, não resulta suficientemente rápido para ser bom). Outras soluções podem envolver a ingestão de pão (para «absorver» o picante), bebidas gaseificadas (para «dissolver» o picante) ou sumos de citrinos (para «lavar» o picante).
Só que o picante liga-se aos receptores das papilas gustativas (como queijo derretido frio na manga de uma camisa), pelo que uma simples passagem de água ou de outro líquido não o dissolve e o ardor persiste. Dilui-se bem no álcool (a verdadeira razão pela qual beber bebidas alcoólicas pode atenuar o ardor), gorduras e óleos mas não se dilui bem em água (razão porque beber água não é muito eficaz e após um alívio temporário de alguns segundos a sensação de ardor se mantém).
Uma substância na qual o picante se dissolve bem é a caseína, presente no leite. Como já pessoalmente pude várias vezes comprovar, ingerir leite após o consumo de algo picante elimina bastante eficazmente a sensação de ardor.
(Alguns estudos têm revelado que uma solução de 10% sacorose e 90% água a 20º C é tão eficaz como o leite a 5º C, enquanto uma bebida com 5% de álcool é tão (in)eficaz como a água a acalmar o ardor. Frequentementre os restaurantes na Tailândia têm à mesa, para além de pimenta e sal, também açúcar para os clientes puderem aliviar o picante das suas comidas).
No título, apesar de parecer uma marca de bolachas, significa «Boca em fogo». Or é o nominativo de ors «boca» (daí a palavra oral) e ignis é o ablativo latino para «fogo» (daí a palavra ignição).
Pensando bem, era um bom nome para uma marca de algum aperitivo picante. «Passa-me aí um pacote de «Orinigne». Era capaz de funcionar...)
Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005
Euler ergo Platon
Os chamados
sólidos platónicos são somente 5 (tetraedro, cubo, octaedro, isocaedro, dodecaedro). São sólidos regulares, todas as suas faces são iguais e, em cada face, os lados são todos iguais. São a epítome da igualdade.

Para além disso há somente e exactamente 5 sólidos deste tipo. Por muito criativo que se seja, por muito que se tenha uma imaginação fértil, é impossível conceber (tal como construir) outros sólidos (além destes 5) que tenham as faces todas iguais e em que os lados de cada face sejam também iguais.
~
Como assim «é impossível conceber»? Vivemos num país livre! Imagino o que quiser!A questão é «Como é que se sabe que há apenas 5?». Não haverá algum outro, que nunca foi imaginado e tentado? Não há infinitos sólidos, com tantas faces regulares quantas se queiram? Como sabem que não há mais nenhum?
Existe uma demonstração matemática de que assim é. (Já «.» o tinha referido num comentário ao artigo
Omnia factus mathematica)
Não há mais sólidos platónicos para além dos 5 conhecidosEssa demonstração é extremamente curta e recorre à chamada
Fórmula de Euler «Num qualquer poliedro (sólido formado por polígonos, regulares ou não)
o número de faces menos o número de arestas mais o número de vértices é sempre 2»
F - A + V = 2(um outro dos muitos feitos de Euler pode ser apreciado em As pontes de Königsberg) Aplique-se então a fórmula aos sólidos de Platão.
Cada tem um número de faces (n) e cada face tem um número de arestas (k) e em cada vértice há o mesmo número de faces que se tocam (p).
Aplicando à Fórmula de Euler obtem-se:
n - (n×k/2) + (n×k/p) = 2
Como todos os termos que estão a somar tem um factor comum (n) colocamo-lo em evidência:
n×(1 - (k/2) + (k/p) ) = 2
Como n é o número de faces, tem de ser um número positivo.
Isso significa que 1 - (k/2) + (k/p) também tem de ser positivo, uma vez que o produto de ambos dá um número positivo (2).
1 - (k/2) + (k/p) > 0
Isto é o mesmo que
(2/k)+(2/p) > 1
Analisem-se agora as opções para os valores de k (arestas de cada face) e de p (faces por vértice).
Primeiro têm de ser números inteiros positivos.
Obviamente que, para ser um sólido, é necessário haver 3 ou mais faces (k ≥ 3) e logo há também 3 ou mais faces por vértice (p ≥ 3)
(Vivemos num mundo a 3 dimensões, se bem que uma nova teoria não comprovada admite que o universo possa ter
10 dimensões...)
Os únicos valores que satisfazem a condição de (2/k)+(2/p) > 1
são:
k = 3, p = 3 (tetraedro) 2/3 + 2/3 = 4/3 = 1,333... > 1
k = 3, p = 4 (octaedro) 2/3 + 2/4 = 14/12 = 1,1666... > 1
k = 3, p = 5 (dodecaedro) 2/3 + 2/5 = 16/15 = 1,0666... > 1
k = 4, p = 3 (cubo) 2/4 + 2/3 = 14/12 = 1,1666... > 1
k = 5, p = 3 (isocaedro) 2/5 + 2/3 = 16/15 = 1,0666... > 1
Quaisquer outros valores de k ou de p não dão valores superiores a 1.
k = 3, p= 6 → 2/3 + 2/6 = 3/3 = 1
k = 4, p = 4 → 2/4 + 2/4 = 16/16 = 1
k = 7, p = 10 → 2/7 + 2/10 = 34/70 ≈ 0,4857 1Isto também explica porque os Sólidos de Platão são constituídos por
triângulos (k=3); quadrados (k=4); pentágonos (k=5).
q.e.d.(Quod erat demonstrandum - Como queriamos demonstrar)
Curiosamente, o nome de Platão era Aristócles
. Platão foi a alcunha que um professor lhe deu quando era estudante. Platon
significa «ombros largos» em Grego, alcunha que encaixava tão bem no jovem Aristócles que todos, incluindo ele mesmo, para sempre o nomearam assim («ombros largos» poderia tanto referir-se à largura anatómica quer à largura dos seus argumentos...)
No título "Euler logo Platão", numa inversão curiosa, uma vez que foi Euler que demonstrou a unicidade dos sólidos de Platão (pelo que Euler justifica Platão neste aspecto) mas por outro lado Platão antecede Euler em 2 000 anos. Sou, para quem ainda não teve oportunidade de constatar nos meus sucessivos artigos, um apreciador de paradoxos...
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005
Adipi carbo
Na senda de alguns dos últimos artigos, em que se exploram alguns desconhecimentos e mal-entendidos sobre o que ingerimos nas sociedades «ocidentais» (todas as sociedades culturalmente estado-unidense influenciadas, independentemente da localização geográfica),
Cafea est optima amicaCafea liberaQuotidianus calorsegue-se o vasto grupo das gorduras, essas inimigas que a maioria ama e odeia simultaneamente, mesmo quando usam o nome de código
«lípidos».

Lípidos, apesar de geralmente associado às gorduras, é um nome geral para as substâncias de origem orgânica que são pouco solúveis em água (ceras, ácidos gordos, esteróides, colesterol, ...).
Têm geralmente uma estrutura que inclui uma parte polarizada (em que há uma divisão das cargas eléctricas negativas e positivas dentro da estrutura), sendo a outra parte não polarizada (as substâncias polarizadas dissolvem-se muito bem noutras substâncias polarizadas, como a água, enquanto as não polarizadas dissolvem-se muito mal em água).

Na imagem ao lado está uma representação geral de um lípido, na qual a estrutura polar (que se dissolve em água) é a parte rotunda e a não polar representada pelos «flagelos» a ela ligada. As paredes celulares dos organismos são constuídas por 2 camadas de fosfolípidos. A parte polar de cada camada fica voltada para fora (é atraída pela água) e a não-polar para dentro. Dessa forma a célula é impermeável à água.
Os ácidos gordos fazem parte da alimentação e estão divididos em duas categorias, conforme o tipo de ligações que têm. Há os ácidos gordos
saturados e os
insaturados. Já todos ouviram dizer que os
saturados não são bons para a saúde, devendo a dieta incluir principalmente
insaturados. Quem costuma dar esse conselho também costuma
não explicar o que é cada um desses tipos de gordura.
Comecemos pelo básico. As substâncias orgânicas são aquelas que incluem, na sua composição, átomos de carbono (que vem do latim
carbo «carvão».
Ver
Alquimia para a origem do nome de outras substâncias).
O carbono é constituído por 6 protões (pelo que o seu número atómico é 6). Nos átomos neutros (quando têm carga, por falta ou excesso de electrões chamam-se iões) o número de electrões é igual ao número de protões, pelo que um átomo típico de carbono tem 6 electrões. (Curiosamente, o carbono é também o sexto elemento mais comum do Universo).
Um átomo de carbono tem 4 electrões de valência (a última orbital de electrões tem 4, tendo a primeira os outros 2). A orbital de valência de qualquer átomo pode conter 8 eletrões (ou então 2), sendo esta a configuração estável. Dessa forma, os átomos agregam-se para formar moléculas, de modo a que a orbital de valência de cada átomo seja 2 ou 8 por partilha das orbitais de valência. Como cada átomo de carbono tem 4 electrões de valência, o átomo de carbono isolado não é estável em si mesmo. Irá juntar-se a outros átomos para formar moléculas e preencher essa orbital. Quando o número total de elctrões ultrapassa os 2 (no hidrogénio) ou 8 na camada de valência, os outros electrões preenchem a camada seguinte.

Por exemplo, a fórmula química do metano é CH
4. Isto significa que é formado por 1 átomo de carbono e 4 de hidrogénio. Nesta molécula, cada um dos átomos de valência do carbono vai para cada um dos de hidrogénio (que ficam com 2 cada), o o de carbono ganha 4 de valência (ficando com 8)
O carbono é o átomo mais comum nos organismos terrestres, devido à sua capacidade de formar longas cadeias de átomos de carbono ligados entre si e a outros compostos.
Há cadeias de carbono em que apenas um electrão de valência de cada átomo de carbono é partilhado com outro átomo de carbono. Há outras em que há dois electrões de valência partilhados entre cada par de átomos de carbono.
Quando uma cadeia de átomos de carbono tem ligações simples, essas cadeias chamam-se
saturadas (porque há mais átomos que não são carbonos ligados à molécula para preencher a orbital de valência).
Quando há ligações duplas essas cadeias de carbono chamam-se
insaturadas (há menor número de outros átomos ligados à molécula para preencher a orbital de valência).


Nos dois exemplos temos o
Etano e o
Etileno.
No Etano, os carbonos trocam um electrão cada, pelo que se podem ligar 6 átomos de hdrogénio. No Etileno, os carbonos trocam 2 electrões, pelo que só se podem ligar 4 átomos de hidrogénio.
O Etano é
saturado, o Etileno é
Insaturado.
Ora os «flagelos» dos lípidos são constituídos por cadeias de carbono com hidrogénios a eles ligados (as cadeias de carbono nos lípidos têm sempre um número par de carbonos).
Quando as cadeias de carbono têm ligações duplas, o ácido gordo que formam chama-se
insaturado.
Quando as cadeias de carbono têm ligações simples, o ácido gordo que formam chama-se
saturado.
Esta é a origem dessas designações. Não é porque se fica mais «cheio» quando se come os saturados do que os insaturados. Tem simplesmente a ver com o tipo de ligações existentes entre os seus átomos de carbono.
A carbono é muito abundante na Terra e aparece sob várias formas.
Como carbono puro pode surgir em:
~ grafite (que são camadas de «folhas» de carbono juntas. Como facilmente se separam são óptimas para o fabrico de lápis);
~ diamante (um único cristal de carbono, com uma imensa quatidade de átomos de carbonos ligados todos entre si. Formam ligações fortes, daí a sua resistência);
~ fullereno (esta é uma forma de ligações entre átomos de carbono descoberta em 1995 e que valeu aos seus descobridores Kroto, Curl e Smalley o prémio Nobel da Química em 1996.
Os fullerenos são constituídos por mais de 60 átomos de carbono.
O fullereno mais simples é o C60, chamado BuckminsterfullerenoA sua forma é a de uma bola de futebol oca (icosaedro truncado).
Este foi o primeiro fullereno a ser descoberto (e a razão pelo qual são conhecidos como fullerenos). O nome é assaz complicado e tem uma origem talvez estranha.
Richard Buckminster Fuller era (morreu em 1983) um arquitecto que tornou conhecidos os domos geodésicos (estruturas de metal de forma hexagonal, preenchidas por outra substância).
Como o C60 tem uma forma semelhante, recebeu o nome de Buckminsterfullereno.
No título «Carvão na gordura»
Terça-feira, 1 de Novembro de 2005
Rubrum cor
Quantas vezes acontece que, quando estamos a escrever um texto para uma página da internet ou num blog, queiramos escrever uma letra especial, não existente no alfabeto que temos disponível no teclado e não sabemos como? Facilmente escrevemos um endereço de um e-mail (como mauro.maia@sapo.pt) mas e se quisermos escrever a letra grega «alfa»?
Ou uma seta, sem ser a pouco atraente «->»?
Geralmente desiste-se ou pensa-se em alternativas, quando possível.
Mas tal não é necessário, nem é preciso ter alguma fonte de letras instalada no computador ou no servido da internet.
A própria linguagem http (HyperText Transfer Protocol) possui uma forma de introduzir caracteres especiais, que não estão incluídos no teclado e que abrangem uma grande variedade de letras e símbolos diferentes. Eis então uma lista dos códigos desses caracteres e a forma de os incluir no texto.
Suponhamos que estamos a escrever um texto em que queremos incluir as letras gregas «alfa» e «beta», Por exemplo «A palavra alfabeto deriva das duas primeiras letras gregas: alpha (α) e beta (β)». Para escrever as duas letras como elas são limitei-me a escrever, no lugar onde queria que surgissem, seguido (sem espaços) do código para essa letra (no caso do «alfa» é α e no «beta» β).
Ou então , por vezes gostávamos de puder escrever algum texto entre os símbolos maior (<) e menor (>), numa espécie de comentário sem usar os batidos parêntesis ou as vírgulas.
Por exemplo «Ela deslocou-se pela floresta com a graciosidade de um felino e... <ups> tropeçou e caiu numa poça de água.»
Se se colocar simplesmente < e > a partir do teclado, o texto ficará
«Ela deslocou-se pela floresta com a graciosidade de um felino e... tropeçou e caiu numa poça de água.», porque o blog assume como um comando um texto entre esses dois símbolos. Para os escrever escrevi < (<) e > (>).
Também se quisermos referir um comando a usar num blog sem que ele o faça no nosso texto, utilizaremos estes códigos. Por exemplo, «Para escrever um texto em expoente escreve-se o texto entre <sup> e </sup>» como em S.ra Dna Maria. Como item usa-se <sub> e </sub>», como em H2O. O incoveniente é que as linhas são afastadas para dar espaço, o que, como neste caso, pode não ser muito estético...»
São estes então os códigos de alguns dos caracteres especiais que puderão surgir como necessários mais vezes e não é possível fazer pelo teclado
(a lista está ordenada por contexto e não por número de código):
© copyright ©
® marca registada ®
™ trademark ™
Æ AE latino maiúsculo Æ
æ ae latino minúsculo æ
Œ OE latino maiúsculo Œ
æ oe latino minúscula œ
Ð ETH latino Ð
Ø O cortado maiúsculo, conjunto vazio Ø
ø o cortado minúsculo, conjunto vazio ø
Þ «A língua de fora do mIRC» maiúscula Þ
þ «A língua de fora do mIRC» minúscula þ
α alfa minúsculo α
β beta minúsculo β
γ gama minúsculo γ
δ delta minúsculo δ
ε epsilon minúsculo ε
ζ zeta minúsculo ζ
η eta minúsculo η
θ theta minúsculo θ
ι iota minúsculo ι
κ kapa minúsculo κ
λ lambda minúsculo λ
μ miu minúsculo μ
ν nu minúsculo ν
ξ xi minúsculo ξ
ο omicron minúsculo ο
π pi minúsculo π
ρ ro minúsculo ρ
ς sigma minúsculo ς
σ tau minúsculo σ
τ tau alternativo τ
υ upsilon minúsculo υ
φ fi minúsculo φ
χ qui minúsculo χ
ψ psi minúsculo ψ
ω ómega minúsculo ω
• pequeno círculo preto •
← seta à esquerda ←
↑ seta acima ←
→ seta à direita →
↓ seta abaixo ↓
↔ seta esquerda-direita ↔
× multiplicação ×
÷ divisão ÷
√ raíz √
∑ somatório ∑
∞ infinito ∞
∧ «e» lógico ∧
∨ «ou» lógico ∨
∩ intersecção ∩
∪ união ∪
∴ conclusão lógica ∴
≈ aproximadamente igual a ≈
≠ diferente de ≠
♠ «espadas» ♠
♣ «paus» ♣
♥ «copas» ♥
♦ «ouros» ♦ (ouros a branco seria ◊ ◊...)
† punhal †
‡ duplo «mais» ‡
‰ permilagem ‰
e.g.
«Levantei o meu punhal, pronto para matar o meu único amor, o meu alfa e o meu ómega, o meu somatório de todo o belo, o meu infinito. Hesitei e esmoreci... Conclusão lógica: amo-a demais...»
ficaria
«Levantei o meu †, pronto para matar o meu único ♥, o meu α e o meu ω, o meu ∑ de todo o belo, o meu ∞. Hesitei e esmoreci... ∴ amo-a demais...»
que se vê como
«Levantei o meu †, pronto para matar o meu único ♥, o meu α e o meu ω, o meu ∑ de todo o belo, o meu ∞. Hesitei e esmoreci... ∴ amo-a demais...»
Já agora, para fazer ♥, escrever-se-ia
<font color="red">♥</font>.
Para as cores: "azul «blue»; verde «verde»; amarelo «amarelo»; branco "white";...
No título «Coração vermelho»