Entrámos, a 1 de Janeiro de 2001, no 2.º milénio (como não houve ano 0, os dois mil anos completaram-se em 2001). A tendência da cultura ocidental tem sido a de ver o progresso da Humanidade como algo linear e cumulativo. A ser assim, seríamos, hoje, mais avançados do que os Portugueses que fizeram a descoberta do Brasil (por exemplo), como esses seriam mais avançados do que os Portugueses que lutaram pela criação de Portugal e esses mais avançados do que os Suevos e Alanos que os procederam e assim por diante. Não se confunda aqui o desenvolvimento com progresso tecnológico, se bem que mesmo este teve vários recuos ao longo da História, mesmo que o século XX possa parecer indicar o oposto. As raízes dessa visão da História como sendo um processo cumulativo (como a Ciência), terá as suas raízes na Revolução Francesa (como muitas outras coisas, quer boas quer más, que ainda hoje temos) e o Comunismo (filho ilegitimo dessas ideias) preconiza-o de forma cega e alienatória. Mas a História da Humanidade tem parecido recheada de retrocessos e de repetição de erros passados. A barbárie e a desumanidade de algumas épocas têm encontrado paralelos ao longo da História, por muito que os anos, os séculos e os milénios avancem.
Uma componente da Humanidade (não a mais importante, não a exclusiva mas uma importante) tem sido a do pensamento racional e científico, que projectou uma pequena e frágil espécie de primatas, oriunda de África, para a conquista do Planeta. Para um sumário resumo sobre a evolução humana e a sua ascendência primata, ver o artigo Primos inter primos. Chegados ao início do século XXI (com apenas 150 séculos passados desde o nosso aparecimento na Terra, comparados com os 600 mil séculos que os Dinossáurios vagueram por cá, cerca de 400 vezes mais tempo do que nós) a espécie humana encontra-se simultaneamente desconfiada da Ciência e cada vez mais dependente dela. Ver Cave Savrie sobre os Dinossáurios e uma das suas principais características, que indica que somos mais parentes deles do que muitos répteis actuais e ainda, para uma reflexão sobre a dualidade do papel da Ciência, ver Scientia in orbis core. Não se confunda a busca pelo pensamento racional com incapacidade de sonhar. Aliás, se algo tem fomentado o desenvolvimento da Ciência tem sido exactamente o sonho de procurar o (aparentemente) impossível, sem as amarras e os grilhões da auto-ilusão e da exploração para fins alheios. Esta dualidade do papel da Ciência, na sociedade actual, tem fomentado misticismos e noções perfeitamente desadequadas (se não mesmo perigosas) no final do século que terminou e neste que inicia. Seria moroso (e desprovido de finalidade concreta, aqui no Cognosco) fazer uma lista dessas noções. Abordaremos apenas uma, um curioso meme que dá pelo nome de Vampiros e o seu Conde Drácula.

As histórias de vampiros humanos que sugam o sangue das suas vítimas para se alimentarem, tornando-as igualmente vampiros, têm-se espalhado pelo Mundo, à medida que a Globalização avança. Mas os Vampiros como hoje se entendem, os seus poderes e fraquezas, teve a sua origem no folclore da Europa de Leste. A própria palavra «vampiro» deriva directamente da palavra «vampir», comum a todas as línguas eslavas (do romeno ao russo), surgida por volta de 1050 DC. Nessa altura, os vampiros eram «apenas» criaturas que roubavam a alma aos vivos, tornando-os também a eles vampiros. Alguns alimentavam-se dos mortos, outros sugavam o sangue às suas vítimas. Mas nada de morcegos que mordem para chuparem (um pouco) de sangue. Essa ligação entre vampiros e morcegos surgiu com os Descobrimentos. As únicas três espécies de morcegos que se alimentam de sangue são oriundas da América do Sul. Quando os Europeus (Espanhóis e Portugueses) depararam com estes morcegos, a notícia de que os vampiros eram mesmo reais correu a Europa. A associação entre os morcegos e os vampiros tornou-se, então, fixa. Mas vampiros e morcegos não são a mesma coisa: se fossem, que lógica haveria em chamar a esses animais morcegos-vampiros? .:. No início do século XIX (em 1819), surgiu o livro «The Vampire», de John Polidori, onde surge, pela primeira vez na literatura europeia, um vampiro humano aristrocrático, na figura de Lord Ruthven. O livro que escreveu baseou-se num pequeno conto escrito pelo famoso poeta inglês Lord Byron, escrito por este na mesma noite e na sequência do mesmo desafio que levou Mary Shelley a escrever «Frankenstein». .:. Em 1871, Sheridan Le Fanu escreveu «Carmilla», a história de uma mulher vampira que persegue uma jovem e inocente vítima. .:. Baseado neste último, Bram Stoker escreveu, em 1897, o famoso livro «Drácula». Inspirou-se também no enigmático príncipe (e não conde) Vlad III Tepes, que governou a Valáquia(parte da actual Roménia), entre 1448 e 1476.


E os Otomanos continuavam a sua expansão territorial e militar. Para lhes fazer face, o Rei Sigismundo I da Hungria criou, em 1408, a Ordem do Dragão (Societatis Draconistrarum), um grupo de cavaleiros nobres cuja missão era defender a religião cristã. Dos 24 membros-fundadores, faziam parte o Rei da Hungria, o Rei da Sérvia, o Rei da Polónia, o Rei da Lituânia, o Rei da Áustria, o Rei da Dinamarca e o Rei de Aragão e Nápoles (de nome Afonso e bisneto de D. Pedro I de Portugal e de Dona Inês de Castro). Equivalentemente, em Portugal, em 1318, foi criada a Ordem de Cristo, uma ordem militar cristã, inicialmente sediada em Castro Marim e depois movida para Tomar, onde absorveu os bens e propriedades da extinta Ordem dos Templários.
Na altura em que nasceu (em 1431) o seu segundo filho, na Transilvânia, de nome Vlad III, Vlad Dracul encontrava-se em Nuremberga, para ser integrado na Ordem do Dragão. Com a idade de 5 anos, Vlad III tornou-se membro da Ordem do Dragão e assumiu o cognome de Draculae («pequeno dragão» em latim). Actualmente, em romeno, a palavra «draco» significa «demónio» mas, na altura, o seu significado era o mesmo que tinha em latim, Dragão. Quando era jovem, o seu pai negociou com os Otomanos para que estes não invadissem a Valáquia. Em troca, Vlad II tornou-se vassalo dos Otomanos e entregou os seus dois filhos mais jovens (Vlad III e Radu) como reféns dos Otomanos, como garantia. Vlad III foi muito maltrado fisicamente pelos turcos, o que lhe marcou o espírito e lhe deu um ódio enorme pelos turcos e pelo seu pai, que considerava como traidor à Ordem do Dragão (em vez de lutar contra os muçulmanos otomanos, tornou-se seu vassalo sem oferecer luta). Vlad III passava bastante tempo no seu palácio, à volta do qual se desenvolveu a moderna cidade de Bucareste, capital da actual Roménia. Vlad III Draculae tem também a alcunha de Vlad III Tepes (que significa «O Impalador»), pois essa era a sua forma preferida para executar prisioneiros. Durante a sua vida, manteve a luta contra os Otomanos e é até, na Roménia, ainda recordado como um príncipe justo e defensor do principado. Foi casado duas vezes, tendo a primeira mulher (de que não se sabe o nome) morrido em 1462: os Otomanos preparavam-se para invadir a Valáquia e a mulher de Vlad Draculae atirou-se da janela do palácio Poienari para o rio alegadamente dizendo que «preferia que o seu corpo apodrecesse e fosse comido pelos peixes do que ser capturada pelos Turcos». Ainda hoje, o rio onde ela se suicidou chama-se «Râul Doamnei» (O rio da Senhora, em romeno). Vlad terá morrido em 1476 mas não se sabe se em combate ou durante uma caçada. Os Turcos ficaram com e decapitaram o cadáver do Príncipe da Valáquia, conservando-o em mel e enviando a cabeça para o Sultão do Império Otomano. Supostamente o corpo terá sido enterrado num convento perto de Bucareste.
Vlad Draculae faz parte das lendas e folclore romenos. Para os camponeses romenos, Vlad Darculae é lembrado como um defensor do povo e protector da nação contra os Turcos. O poeta nacional da Roménia Mihai Eminescu (1850-1889) escreveu «Onde estás, Lorde Tepes, para os apanhares e separares em dois grupos: os tolos e os patifes», numa referência às medidas anti-corrupção e anti-criminais (muitas vezes brutais) que Vlad Draculae usava. A par dessa luta contra o crime e a corrupção, Vlad Drculae também é recordado por ter, como resposta ao que considerou um insulto, pregado, em vida, os chapéus de embaixadores (a nação varia conforme a lenda) às suas cabeças. O seu gosto por impalar também é uma outra das suas características mais negativas referidas. As principais vítimas eram os prisoneiros turcos que ele capturava depois das batalhas. Conta-se que Mehmed II, sultão otomano, voltou para trás numa altura em que invadia a Valáquia depois de deparar com dezenas de milhar de cadáveres de soldados turcos impalados em redor da capital de Vlad Draculae, Targoviste. Estabelecem-se assim algumas diferenças entre o mito do Conde Drácula e a figura histórica que «inspirou» a sua criação (o nome Drácula deriva directamente do seu título de membro da Ordem do Dragão, Draculae): ~ Vlad III Draculae era príncipe (e não conde) e o seu nome significa pequeno dragão, por pertencer à Ordem Militar Cristã do Dragão. ~ Foi cruel durante o seu reinado mas, certamente, não muito mais do que muitos dos reis da sua época. É recordada e elogiada a sua luta contra a corrupção e contra o crime (referida, em 2004, pelo então candidato e actual presidente da Roménia Traian Basescu como exemplo a seguir). ~ Apesar de ser associado à Transilvânia (onde nasceu durante o exílio dos seus pais), Vlad Draculae governou a Valáquia, um principado vizinho. ~ Foi um governante que lutou pela Fé Católica e pelo Poder da Igreja. Por isso, dificilmente seria afectado por lhe ser mostrada um cruz... ~ Morreu, em 1476, decapitado pelos inimigos da fé católica, o seu corpo enterrado na Valáquia e a cabeça enviada para a Turquia.
Os verdadeiros vampiros existem, de facto: os Morcegos Vampiros. Há, neste momento, aproximadamente mil e cem espécies de vampiros, das quais apenas três (0,27%) são vampiras (isto é, alimentam-se de sangue): os Desmodus rotundus, os Diphylla ecaudata e os Diaemus youngi, as três originárias (e residentes) na América do Sul... Ou seja, uma família pacata e maioritariamente frugívora ou insectívora como os Morcegos, com as suas milhares de espécies, recebe uma tremenda má fama por causa de apenas 3 delas (um pouco como se uma família inteira de mil e cem pessoas fosse suspeita dum crime cometido por apenas três dos seus membros). Aliás, há quem (e é de bom-senso) construa «Casas para Morcegos», tal como se constroem «Casas para Pássaros», em particular na Europa, onde a maioria dos morcegos é insectívora. Deste forma, estimula-se o crescimento da população de morcegos insectívoros: os mosquitos e outros insectos voadores perigosos são comidos e os morcegos, que passam o dia a dormir e, durante e noite, voam em silêncio e emitem sons demasiado altos para um Ser Humano ouvir (a eco-localização que lhes permite voar no escuro), não incomodam qualquer pessoa e contribuem para a saúde de quem, tantas vezes, os maltrata. Uma das espécies que os Morcegos caçam e que é altamente irritante e perigosa, por extrair sangue de animais (e de seres humanos) e poder, dessa forma, propagar graves doenças, é a dos mosquitos. Mas apenas as fêmeas o fazem, para alimentar os seus ovos, enquanto os machos se alimentam de pólen, ver Girl Power. Eis a página oficial do «Castelo de Drácula», na Transilvânia (disponível em Inglês e em Romeno), que pode ser (e é) visitado.