Diário das pequenas descobertas da vida.
1914. A Europa está mergulhada numa guerra fraticida de grandes proporções. Milhões de jovens encontram-se mergulhados até ao joelhos na lama das trincheiras europeias.

Após o assassinato, em Junho de 1914, do Arquiduque Franz Ferdinand, o herdeiro do trono Áustro-Húngaro, a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia, que há muito acalentava sonhos de total independência dos Áustro-Húngaros.
O Czar russo Nikolai II, simpatizante da causa sérvia, declara guerra à Áustria-Hungria (desconhecedor de que tal acto levaria, passados meros três anos, à sua destituição e fuzilamento às mãos dos comunistas, que subiram ao poder também devido ao descontentamento popular provocado pelo elevado número de baixas russas na guerra).
Duas alianças militares levantam-se então para protecção dos seus aliados: as Potências Centrais (Império Áustro-Húngaro, Império Germânico e Império Otomano) e os Aliados (Inglaterra, França e Rússia). Ao longo da Guerra outros países acabariam por se alinhar com uma das duas alianças (em particular os EUA, cuja entrada, ao lado dos Aliados, determinou o fim da Guerra).
(Para mais artigos relacionados com a Iª Guerra Mundial ver:
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Wilhelm sobre o Kaiser alemão;
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Quis primus fuit que fala sobre as origens comuns de Kaiser e Czar;
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Portugal de Primeira sobre as baixas portuguesas na Iª Guerra Mundial;
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Míngua sobre as origens do Império Otomano e do oficioso símbolo muçulmano;
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Um século sobre a ligação do extremismo muçulmano à Iª Guerra Mundial;
O assassino de Franz Ferdinand não tinha noção que o seu acto mergulharia a Europa numa guerra cruel de 4 anos, após a qual 3 Impérios seriam desfeitos (Áustro-Húngaro, Alemão e Otomano), uma nova potência mundial surgiria (EUA) e o comunismo seria implantado no maior país (em termos geográficos) do mundo e nasceria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Por sua vez, o surgimento destes dois protagonistas mundiais mergulharia o mundo em décadas de terror nuclear.
Dezembro de 1914 chega. Para os milhões de soldados nas trincheiras, o Natal que se avizinha promete ser o mais triste das suas vidas, longe de famílias e do conforto do lar.
A noite de 24 de Dezembro chega, sem que o impasse na frente ocidental se quebre.
O primeiro Natal da Guerra será passado ao frio e com as botas mergulhadas na humidade das trincheiras.
As tropas inglesas, nas suas trincheiras entre a cidade francesa de
Ypres e o canal de
La Basseel, ouvem, do outro lado da Terra de Ninguém, que separava as trincheiras inimigas, cânticos de Natal. Em particular ouvem
Stille Nacht. A melodia é a mesma que
Silent night mas cantada em Alemão (em Português é
Noite de Paz). Os Ingleses começam também a cantar a versão inglesa e cedo um amistoso coro germano-britânico enche o ar frio da noite com a canção de Natal.
As tropas aliadas, a medo, espreitam por cima dos sacos de areia, para lá da Terra de Ninguém. O que vêem deixa-os boquiabertos: do outro lado avistam-se pinheiros adornados com velas. Os alemães tinham enfeitado pequenas árvores com velas.
Convém aqui lembrar que o costume de adornar as árvores de Natal com luzes (na altura eram velas), em particular os pinheiros, comuns na Europa do Norte, é um costume de origem alemã, as Tannenbaum
. Foi o príncipe Alberto (1819-1861), primo e marido da Rainha Vitória e ferveroso patriota alemão, quem levou o costume para a Inglaterra. Daí espalhou-se para as vastas possessões mundiais britânicas.
Uma das tristes realidades da Iª Guerra Mundial é que os seus principais protagonistas, o Império Britânico e o Império Germânico eram governados por parentes, nomeadamente 2 netos da rainha Vitória, o Rei George V da Inglaterra e o Kaiser Wilhelm II da Alemanha (que eram primos) e o Czar Nicolai II Romanov (casado com Maria Fyodorovna, prima do Rei de Inglaterra e do Kaiser da Alemanha)..
Mais perplexos ficaram quando avistaram soldados alemães, sem armas, saírem das suas trincheiras com árvores de Natal nas mãos e dirigirem-se, desarmados, para as trincheiras inglesas. Imbuídos do espírito natalício os ingleses saem das suas trincheiras para os acolherem, perante o olhar incrédulo dos seus superiores.
A camaradagem começa: presentes são trocados (os ingleses apreciam os charutos alemães e estes apreciam as rações inglesas), histórias são trocadas (um soldado alemão viveu e trabalhou na Inglaterra até ao despontar da Guerra e pede a um soldado inglês que leve uma carta sua à namorada na Inglaterra), anedotas partilhadas, fotografias de parentes mostradas, endereços e promessas de envio de cartas trocados. Em conjunto dirigem-se à Terra de Ninguém e ambos os exércitos escavam covas para enterrarem os corpos que ali jaziam: Ingleses ajudando Alemães e Alemães ajudando Ingleses; em conjunto cavam túmulos e prestam as últimas homenagens aos mortos.

Os dois lados apercebem-se que o seu inimigo está tão miserável como eles próprios, ambos sofrendo com o frio, com a humidade das trincheiras, com as saudades de casa.
O inimigo já não é tão inimigo, são todos apenas jovens, combatendo por ordem de generais a quilómetros de distância.
As tréguas e a confraternização duraram dias.
Um jogo de futebol foi organizado, a 1 de Janeiro. Uma bola de futebol foi trazida das trincheiras inglesas e os Ingleses jogaram contra os Alemães (aparentemente o jogo foi ganho por estes últimos por 3-2).
Entretanto os oficiais de ambos os lados tiveram conhecimento destas tréguas espontâneas e imediatamente ordenaram que fosse parada.
Pedidos de cesar-fogo escapavam já das bocas dos soldados envolvidos nesta
Trégua do Natal de 1914 (que foi principalmente ao longo do sector inglês, entre estes e os alemães. Franceses e Belgas também participaram nesta trégua noutros pontos da frente, mas limitadamente. Afinal ambos os países - parte da França e a totalidade da Bélgica- estavam sobre ocupação alemã).
Um oficial inglês, zeloso do seu papel como militar, disparou sobre um soldado alemão. As tréguas terminaram.
Noutros pontos da frente há registos de trocas amistosas de cumprimentos, tiros disparados para o ar e o recomeço dos combates.
Mas por um dia (ou por vários dias num ou noutro sector), a paz reinou sobre o coração de soldados inimigos.
Sempre que penso no Natal, sempre que vejo histórias de Natal, em que é salientado o espírito de paz, a partilha e as boas acções, sempre me lembro destas tréguas, feitas por homens em condições sub-humanas, com nada além de ódio e desejos de morte para dar, que acalentaram o sonho de paz e deram as mãos.
Como é fácil pregar a paz rodeado de abundância e felicidade do mundo ocidental actual.
Como parece tão mais genunína esta paz protagonizada por inimigos em guerra...
A 22 de Novembro de 2005 morreu, com 109 anos, o último soldado sobrevivente que participou na Trégua de Natal de 1914. Alfred Anderson
tinha 18 anos quando estava nas trincheiras da Iª Guerra Mundial e participou nas trocas de presentes entre Ingleses e Alemães.
É de salientar que os Alemães iniciaram a Trégua começando a cantar o hino de Natal e aproximando-se das trincheiras inglesas com as Tannembaum.
A pressa de julgar pessoas e povos pela modernidade afoita e inconsequente em que vivemos condena à partida qualquer alemão como frio, racista, xenófobo e responsável pelas duas guerras mundiais. Não são, em termos gerais, nenhuma das coisas (claro que há mentecaptos (uma reduzida minoria) desse tipo na Alemanha, como há em todo o lado. Basta lembrar a manifestação xenófoba em Lisboa protagonizada por Portugueses. Ainda hoje os Alemães vivem com o peso do Holocausto na consciência, mesmo as gerações que nem eram nascidas quando Hitler lançava o caos na Europa) nem provocaram a Primeira Guerra mundial...
No título «Noite de Paz»
De
Rui a 5 de Dezembro de 2005 às 10:52
Bonita história. Nunca tinha ouvido falar nessa Trégua do Natal.
Que bela história de Natal, do Natal de Paz entre os homens que os Homens jovens do povo em guerra, souberam viver! Magnífico post Mauro! Estou comovida, até porque eu sabia desta história, meu avô foi combatente da I Guerra Mundial! Beijo
De
Mauro a 5 de Dezembro de 2005 às 17:04
De facto, Rui, é um dos injustamente menos conhecido episódio da Iª Guerra Mundial. E eu sem dúvida considero-o uma das histórias de Natal mais bonitas, merecedora de um filme. Das mais belas porque é absolutamente verídica (com fotografias, testemunhos credíveis, notícias nos jornais da época,...) mas também porque mostra como a boa-vontade pode surgir no meio da mais pura brutalidade. Ao contrário das histórias tradicionais, em que no máximo o protagonista é pobre, aqui todos eram pobres, miseráveis, a passar frio, com os pés encharcados, com a lama por todo o lado, com amigos mortos a poucos metros de distância. Estou em acordo absoluto contigo, Maria Papoila, é sem dúvida bonita a história. E as minhas saudações ao teu avô. Poucas tropas terão sido mais corajosas do que as nossas na Grande Guerra. Se os outros soldados tinham poucos confortos, os nossos menos ainda tinham, menos de uma década após a implantação da República. Que orgulho saber que se tem tão ilustre antecedente!
De
js a 5 de Dezembro de 2005 às 18:12
...se no meio do que é bom...há sempre algo de mau...no meio do que é mau ...há sempre algo de bom...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt e ...
De
Mauro a 5 de Dezembro de 2005 às 18:39
De facto, js, assim foi com este episódio: o bom (a confraternização) no meio do mau (a guerra). Pena é que o mau venceu: a guerra, decidida e mantida por políticos e generais, foi prosseguida e nunca mais houve uma trégua espontânea como esta (ainda tentaram no ano seguinte, mas a tentativa foi rapidamente abafada). E esta guerra provocou todos os acontecimentos mundiais negativos que abalaram o século XX e prosseguem no século XXI, desde a IIª Guerra Mundial, à Guerra Fria e o terror nuclear, ao extremismo islâmico, aos atentados de Nova Iorque, Madrid, Londres, à Guerra no Iraque,...
De
Nox a 5 de Dezembro de 2005 às 21:16
Tenho ideia de ter ouvido esta história há muito tempo... É, de facto, uma das histórias de Natal mais belas que conheço.
De
Mauro a 5 de Dezembro de 2005 às 21:35
Eu também só conheço a história (e a História) há poucos anos mas fascinou-me desde então, como o fez contigo, «pacis» Nox. ;)
De
Nox a 5 de Dezembro de 2005 às 22:00
Ainda para mais tenho uma certa aversão ao conceito que se faz hoje de Natal... um Natal plastificado, pronto a consumir, repleto de um espírito pseudo-solidário. E a história mostra que, mesmo em ambiente hostil, mesmo tendendo o Homem a reagir visceralmente quando se sente ameaçado, ainda pode florir algo de bom. ["pacis" Nox não, logo hoje que sinto tudo menos pax... mas o trocadilho resultou bem :) ]
De
Mauro a 5 de Dezembro de 2005 às 22:44
Se não for uma realidade fica como desejo de que tenhas e sejas uma «pacis Nox»...
Mauro, meu avô foi paras as linhas da frente como médico e ganhou a Cruz de Guerra. Tenho o seu capacete com a cruz vermelha em minha casa. Ainda hei-de publicar uma das suas cartas das linhas da frente, a minha avó. Mais que orgulho, é uma responsabilidade acrescida ter um antecedente como meu avô. Desculpa ter aqui voltado. Beijo
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