Diário das pequenas descobertas da vida.
Segunda-feira, 11 de Julho de 2005
Rorschach
A maioria já ouviu falar do Teste das Manchas de Tinta de Rorschach.
Rorschach lê-se «Rór+chó+que» ou «Rór+chá+que».
Pelo menos, já viu em filmes ou séries alguns psicólogos a mostrarem alguns cartões com manchas aleatórias a que os pacientes têm de dar uma interpretação, dizendo o que vêem. Em função das respostas, do psicólogo extrai algumas conclusões sobre a personalidade da pessoa. Afinal, se a mancha é aleatória e nada representa, tudo o que o paciente vê é o que a sua mente lá projecta.

Este teste foi desenvolvido pelo psicólogo suíço Hermann Rorschach (1884-1922), um forte adepto da Psicanálise de Freud e a sua ênfase no inconsciente.

O teste é composto de 10 cartões com manchas aleatórias. O psicólogo mostra-os aos pacientes e pede-lhes que digam a primeira coisa que lhes vem à mente. Após todos serem vistos em rápida sucessão, o psicólogo entrega cada cartão ao paciente para que este os analise mais pormenorizadamente. Em cada cartão, deve indicar tudo o que nele vê.

É considerado um sinal positivo quando o paciente roda o cartão 90º, 180º ou 270º. Revela assim que procura uma interpretação numa mancha aleatória.
No entanto é considerado um sinal negativo quando o paciente roda os cartões com ângulos oblíquos ou tapa parte destes, como se parte do desenho lhe estive a impedir a correcta visão do todo. Isto pode ser considerado sinal de danos cerebrais.

A interpretação que os psicólogos podem fazer pode divergir.
Há os que consideram que cada cartão revela a reacção emocional do paciente a uma pessoa ou situação específica.
e.g. um dos cartões representaria os sentimentos em relação à mãe. Comentários negativos em relação a este cartão revelariam questões por resolver com ela. Outro cartão representaria o pai..

No entanto, apesar de se pretenderem aleatórios, a maioria (se não todos) contém símbolos e imagens que esperam os psicólogos tenham uma interpretação sexual (a la Freud...) Mais de quatro menções a imagens sexuais nos cartões indicaria algum tipo de obsessão com o sexo. Aparentemente, também ver certas imagens nos cartões indicaria Esquizofrenia.

Mas este teste é controverso. Em parte porque primeiramente há uma contradição lógica. As manchas pretendem-se ser desprovidas de significado e subjectivas mas fazer uma avaliação das respostas requer que os desenhos tenham desde logo um significado em relação ao qual se interpreta as respostas. Esse significado é feito pelo psicólogo antes de mostrar os cartões ao paciente. Isso significa que, na avaliação do teste, há duas interpretações presentes: a do paciente e a do psicólogo que serve de referência. É óbvio que o psicólogo é igualmente humano e tem os mesmo direitos a ter problemas por resolver com a mãe ou outros distúrbios. Assim sendo, o teste perde a sua validade. Onde estará a insanidade: na interpretação do paciente ou nas respostas de contraste do psicólogo?
Alguns outros problemas do teste procurarem ser resolvidos por outro tipo de testes (o teste das manchas de tinta de Holtzman ou o sistema de avaliação de Exner) mas os problemas subsistem quanto à objectiva interpretação das respostas. O problema inultrapassável prende-se com o facto de o teste só poder ser eficaz quando o paciente nunca antes viu os cartões. Se já os viu, os resultados são absolutamente irrelevantes.

Em 2004, os cartões com manchas de Rorschach foram divulgado na internet. A Sociedade Rorschach considera que as manchas dos cartões são marca registada (pelos vistos alguém anda a precisar de fazer alguma psicanálise para considerarem manchas aleatórias marcas registadas...) mas tal pretensão foi contestada por inúmeras pessoas.
Já que andam na bocas do Mundo (e nos dedos também), o Cognosco achou por bem entrar na refrega e divulgar os já mundialmente conhecidos e estudados cartões.
É de facto curioso, quando os analisamos, prestarmos atenção às imagens que vemos nos cartões. É uma janela para dentro da nossa alma que se abre (ou não, é só engraçado mesmo)...

Na animação, cada cartão é mostrado durante 30 segundos.
Após o décimo cartão a animação recomeça.


Teste de Rorschach


Publicado por Mauro Maia às 21:17
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44 comentários:
De Mauro a 27 de Dezembro de 2006 às 18:35
Fica então registado, «Pedro», a possibilidade de os cartões terem outras cores que não meramente o preto e o branco. Devo salientar, contudo, que das poucas vezes que os vi, eram monocroomáticos, mas agradeço-te a referência à possibilidade de os alargar a outros campos cromáticos e poderem ser reveladores de ainda outros aspectos da personalidade de que a ele é sujeito. Talvez a minha experiência indirecta com os ditos cartões se prenda com a preocupação de quem os divulgou com o eventual «copyright» dos mesmos, pelo que a sua divulgação a um público não-psicólogo se posssa ter feito em tons monocromáticos. É uma questão pertinente e a pesquisar. Mas, tendo em conta o mecanismo pelo qual manchas aleatórias são apercebidas como representações de algo concreto, parece-me que mesmo os cartões monocromáticos poderão ser indicadores de facetas da personalidade e como tal serm psicologicamente relevantes...


De lenir a 19 de Fevereiro de 2007 às 19:35
gostaria de saber como são confeccionadas as pranchas de Rorschach. Compramos prontas ou a confeccionamos?
e se confeccionamos como posso saber.
obrigado
espero resposta urgente

lenir


De Mauro a 19 de Fevereiro de 2007 às 19:58
Bem, «Lenir», a resposta a essa questão é de algum modo dupla: as Manchas de Rorschach são estas mesmas, não são outras e compram-se assim mesmo. Claro que ninguém impede seja quem for de fazer manchas que se assemelham a estas (de algum modo). Não são é Manchas de Rorschach nem são utilizadas pelos psicólogos, uma vez que existe uma «tabela» de interpretação do tipo de respostas que se obtêm perante cada mancha...


De lenir a 22 de Fevereiro de 2007 às 00:52
Mauro, eu só quis saber AONDE essas PRANCHAS podem ser adquiridas. Acho que não soube me expressar. E se quisesse, pudéssemos confeccioná-las. Mas o mais importante é que não consigo adquiri-las. A tabela eu tenho. Obrigado


De Mauro a 22 de Fevereiro de 2007 às 13:44
Já compreendi, «Lenir», a questão. Não sei onde podem ser comprados esses cartões., não sei se haverá alguma loja especializada em materiais psicológicos. Algum(a) profisssional de Psicologia deverá saber onde é que podem arranjá-los. Lamento não poder ajudar nessa questão e, mesmo que pudesse, seria provavelmente uma solução válida em Portugal mas será que seria no Brasil? E acté poderão existir outras soluções no Brasil que não existirão em Portugal. Será que na internet haverá algum site onde se possa comprar/encomendar? Vou procurar e se encontrar logo digo, sim?


De Secret Reindeer a 27 de Fevereiro de 2007 às 16:58
Eu fiz hoje o teste e honestamente só via borrões de tinta. Mas como sabia que tinha que responder tentava visualizar qqualquer coisa. A maioria acabou por ser animais, cheguei mesmo a ver um tamboril. Se nenhuma primeira impressão salta à vista o que quer dizer? E confesso que as únicas figuras que poderiam ser qualquer coisa eram as pretas. As cores não representavam algo. Só vejo o mundo a preto e branco.


De Maria a 10 de Abril de 2007 às 14:46
feliz ou infelizmente fui obrigada a procurar ajuda junto de uma psicologa... Fiz o teste por sua indicação e fiquei bastante confusa..A certa altura os meus olhos já estavam todos trocados!! Tentei encontrar alguma coisa, parecia que não encontrava nada e no fim disse uma parafernália de coisas sem sentido.. (pensava eu)! O resultado foi muita coisa certa sobre mim... Mas será que me vai realmente ajudar naquilo que eu preciso??


De Mauro a 13 de Abril de 2007 às 19:14
Penso, «Maria», que o objectivo é exactmente dizer aquilo que apenas o inconsciente sugere, completamente independente do que racionalmente pensamos que ali está. São as respostas do inconsciente que o psicólogo procura. Se ajudará ou não, penso que dependerá da natureza do que se quer «ajudar» e na capacidade do psicólogo em ajudar e do paciente em querer ser ajudado...


De Jorge a 23 de Maio de 2007 às 04:34
Será que se pode mesmo ver alguma coisa do inconsciente de alguém a partir da interpretação desse alguém de manchas aleatórias criadas por outrém? Fiz o teste recentemente, fui reprovado em processo de seleção de cargo público (professor de nível básico, 5ª à 8ª de inglês). Cargo esse que já ocupo em outro município. Como estudioso das teorias da linguagem, sei com Foucault, Deleuze, Derrida e outros que o signo escapa, a subjetividade é, sim, multifacetada e plástica como o cérebro. Não atribuímos os mesmos significados, sempre, às mesmas coisas. Por isso, o teste não é válido para quem já viu as manchas anteriormente. Buscar sentidos ocultos na superfície do signo, quer dizer apenas buscar sentidos ocultos na superfície do signo, já que, o que se vê é o que se vê e nada além disso. Como eu vejo, não significa, necessariamente, um estado de espírito oculto do subconsciente que viria à tona a cada nova visão, mas, antes, uma interpretação cultural, portanto, também, coletiva do vejo e pronto. As manchas do Rorschasch (sei lá), são as manchas dele, não as minhas. Para analisar os sentidos ocultos do subconsciente de outrém, creio que é necessário mais do que trazer à tona interpretações de manchas ou qualquer outra coisa. Estados de espírito são resultado de um número variado de fatores, que não só o do inconsciente ou sub... É preciso ler Fernando Pessoa, Alberto Caeiro e os pós-modernos todos. Vivemos na era da subjetividade, do eu multifacetado... é preciso aceitar isso. Mesmo nas empresas, pq não há outra maneira de se ver...


De Mauro a 23 de Maio de 2007 às 11:46
Bem, «Jorge», as tuas considerações sobre a validade das (conclusões retiradas da interpretação das) Manchas de Rorschach estão em sintonia com a visão de alguns de que a Psicologia é, na verdade, uma pseudo-ciência (na medida em que as suas conclusões não são testáveis nem é posível fazer despistagem e contra-referências, devido ao carácter único da personalidade de cada pessoa). Não me parece é que se possa dizer «as manchas dele (Rorschach)» não são «as minhas manchas». O fulcro destas manchas é realmente de serem aleatórias e destituídas de significados à priori. Cada um vê nelas o que traz e o que é. O problema poderá surgir não tanto nas manchas mas sim na interpretação que outros fazem da interpretação que o sujeito fez das manchas, o que parece ter sido o caso.


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