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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007
42 regras
</br>
A Língua Portuguesa (e reconheço que estarei a ser parcial) é uma das mais belas e complexas do Mundo. Tem algumas bonitas construções frásicas, como a pronominalização de que se falou em Lusitanae linguae.</br></br>

O desenvolvimento tecnológico e o contacto cada vez mais frequente e importante com outras línguas significativamente mais pobres têm feito esfumar-se algumas das catedrais da ortografia portuguesa. Um dos efeitos do desenvolvimento tecnológico (que é extremamente importante, tendo até em conta que é através dele que escrevo estas palavras, deve ser um meio para a promoção da língua e não para a sua banalização) tem sido o progressivo esquecimento do uso e conhecimento do hífen aquando da passagem de parte de uma palavra no final de uma linha para a linha seguinte (a translinearização).</br></br>

O primeiro uso do hífen corresponderá igualmente ao primeiro texto impresso em 1452.
Neste ano, o alemão Johannes Gutenberg imprimiu aquele que será, ainda hoje, o livro mais imprimido do Mundo, a Bíblia. A prensa de Gutenberg imprimia exactamente 42 linhas da mesma altura em cada página, não sendo possível alterar este valor. Cada página era composta por «tipos» (pequenas peças de madeira ou metal onde está gravada uma única letra) que eram alinhados para formar as frases do texto e que eram mantidos fixos em 42 linhas por meio de uma estrutura rígida que circundava toda a «página». Para tornar cada linha do mesmo tamanho (evitando o uso de imensos «tipos» de espaço em branco), Gutenberg, quando uma linha de texto terminava a meio de uma palavra, colocou um traço no final, do lado direito, indicando que a palavra continuava na linha seguinte.</br>
Na verdade, Gutenberg usava dois traços paralelos horizontais ( = ) para a translinearização. Nessa época, entre os séculos XIII e XVII, usava-se um traço oblíquo ( / ) para representar uma pequena pausa no texto (a bem conhecida vírgula), uma vez que o símbolo moderno ( , ) ainda não se usava. Mais tarde, no século XVI, com a evolução da escrita, a vírgula passou a ser o actual «,» e o traço horizontal passou a ser o símbolo da translinearização. No mesmo século, em 1557, os dois traços horizontais passaram a ser usados, para propósitos matemáticos, como o símbolo da igualdade. O uso de dois traços horizontais para o hífen da translinearização ainda foi usado, na Alemanha, até meados do século XX.</br></br>

Antes das prensa mecânicas, em textos manuscritos, não havia necessidade de se usarem sinais indicadores de que a palavra continuava na linha seguinte: se uma palavra não cabia ou se escrevia na margem ou colocava-se toda a palavra na linha seguinte. Mas a necessidade de manter as linhas com tamanhos iguais para permitirem o seu uso em prensas mecânicas levou à criação desta singular pequena linha, que os descendentes das prensas de Gutenberg (os computadores) ameaçam (esperemos que uma falsa ameaça) agora.</br></br>

Por exemplo, a translineação (o uso de um hífen no final de uma frase para indicar que a palavra continua na linha seguinte) pode ser</br>
Conhe-</br>
cimento</br></br>

É verdade que os processadores de texto podem realizar esta tarefa de divisão silábica no final de uma linha automaticamente, mas não é menos verdade que essa opção é pouco utilizada e, principalmente, como é feito automaticamente as regras pelas quais tal processo é feito permanecem ocultas.</br></br>

Então quais as regras que regem a translineação? À partida é muito linear (aparentemente) mas tem algumas excepções que vale apena referir.</br></br>

~ A primeira e óbvia(?) regra é que a divisão se faz por soletração. Fazê-lo é, geralmente, fácil (ge-ral-men-te), não havendo regras para o fazer. É daquelas coisas que se sentem audivelmente («ge»+«ral» são duas sílabas mas «ger»+«al» NÃO são).
Por exemplo:</br></br>

Sabe-se que é geral-</br>
mente válida esta regra.
</br></br>

~ Os ditongos não se quebram no final de uma linha. Ou parmanece junto numa linha ou passa junto para a seguinte.Um ditongo, como visto em Esdruxulamente, é um conjunto de duas vogais que se lê como um só som. Nem todas as combinações de vogais são ditongos («ai» é ditongo mas «ia» não é), apenas «ai», «ao», «ei», «eu», «ou», «ui».</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Hoje apetece-me começar com bis-</br>
coitos de chocolate e um copo de lei-</br>
te.
</br></br>

~ Nos casos em que há uma consoante dupla (geralmente «rr» ou «ss» mas podendo ser «nn», como em connosco), as consoantes são separadas.</br>
Por exemplo:</br></br>

Este artigo é uma bar-</br>
ri
gada de riso e divertimento</br>
e eu não sei se a impos-</br>
si
bilidade de o reescrever não</br>
fará com que ele tenha con-</br>
nos
co muito sucesso.
</br></br>

~ Se existirem duas consoantes seguidas diferentes, passa apenas a segunda para a segunda linha, excepto se a segunda consoante for «h», «l» ou «r», em que as duas passam em conjunto.</br>
Por exemplo:</br></br>

Vamos alcançar o cami-</br>
nho que nos levará a des-</br>
bloquear todo o nosso con-</br>
trolo sobre o processo.</b>
</br></br>

~ Quando há «qu» ou «gue»/«gui», a constante nunca é separada do «u» que a acompanha.</br>
Por exemplo:</br></br>

Foi somente por ser inques-</br>
tionável que não se sabe o quo-</br>
ciente que se pode comprar dez qui-</br>
los de manteiga e um aquá-</br>
rio. Não se sabe nem mesmo se conse-</br>
gue saber se, em segui-</br>
da, não se comprará um elefante branco.
</br></br>

~ Quando as palavras contém já um hífen (ou mais) por serem formadas por justaposição (como «arco-íris») ou por serem pronominalizadas (como «colocá-lo-ei») a separação pelo hífen acarreta a escrita de dois hífens, um no final da primeira linha e outro no início da seguinte.</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Ao andar pela cidade, caiu-</br>
-me a carteira ao chão. Apanha-la-</br>
-ei de imediato.



Claro que há cuidados que se devem ter para manter um texto adequada e esteticamente translinearizado. Se, por uso das regras da translinearização, ficar apenas uma letra no final ou no início de uma linha, deve-se evitar fazê-lo, colocando toda a palavra no final da primeira linha ou no início da segunda, dependendo do espaço que se tem disponível.


Publicado por Mauro Maia às 10:20
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