Diário das pequenas descobertas da vida.
Ouvem-se, por vezes, enormes atropelos à bela língua com que tivémos a sorte de nascer. Alguns desses atropelos poderão ser cometidos realmente por falta de formação, mas muitos são aqueles cometidos por laxismo e desinteresse.
Não sou alguém (e haverá alguém?!) cujo discurso seja destituído de erros e contradições. Mas o verdadeiramente importante não é errar, é aprender com o erro. Há uma fobia moderna em relação ao erro que é extremamente contraproducente. O erro, como elemento que se combate constantemente, é um importante elemento de aprendizagem e crescimento DESDE que sirva como degrau para cima na escada do conhecimento: esse erro não se volta a cometer, mesmo que ainda hajam muitos a ultrapassar.Há já alguns anos, reuni, a pedido de uma pessoa amiga, uma série de pequenas e pessoais regras ortográficas e gramaticais que tenho vindo a «coleccionar» ao longo dos meus curtos anos de vida e lide com a fera lusitana.
Já em outros artigos tive a oportunidade de falar em outros:
~
Duplex negatio sobre o uso e origem de uma das mais estranhas construções gramaticais da Língua Portuguesa: a dupla negação;
~
Lusitana linguae sobre o uso de uma das mais belas (na minha opinião) estruturas da Língua Portuguesa: a pronominalização;
Outras questões surgem, uma das mais importantes relaciona-se com a acentuação e entoação das palavras em Português (estão muito relacionadas).
Por exemplo,
~ será que Monarquia se lê »Mo+
nár+qui+a» ou se lê «Mo+nar+
quia»
~ será que é «J
úlio» ou «Ju
lio»?
A resposta à maioria destas questões relaciona-se com o conceito de
ditongo e
sílaba tónica. Um ditongo é um conjunto de duas vogais que se lê como um só som. Os únicos ditongos que existem, na Língua Portuguesa, são:
1) ai
2) au
3) ei
4) eu
5) iu
6) oi
7) ou
8) ui
Qualquer outra combinação de letras não é um ditongo e por isso é constituído por duas sílabas:
Ai (expressão de dor) -> ditongo - 1 sílaba
Ia (1ª pessoa do singular do pretérito imperfeito do verbo ir) -> não é ditongo - 2 sílabas
eg: Partiu - tem 2 sílabas (Par - tiu) - iu -> É ditongo
Água - tem 3 sílabas (Á - gu - a) - ua -> NÃO é ditongo
Monarquia - tem 4 sílabas (Mo - nar - qui - a) -> ia não é ditongo
As palavras, em Português, só podem ser acentuadas nas 3 últimas sílabas.
Há 3 tipos de acentos que não podem ser utilizados simultaneamente na mesma palavra:
´ - acento agudo
` - acento grave
^ - acento circunflexo
O ~ (til) não se considera um acento mas somente a indicação gráfica da nasalação das vogais "a" e "o", substituindo assim o an (ã) ; on (õ) ; pode por isso ser usado na mesma palavra com um acento, apesar de não ser comum (exemplo, sótão)
As palavras só podem ser acentuadas (com um dos três primeiros acentos) na sílaba tónica.
A excepção é rara e é só em palavras como «àquele», em que há uma nítida junção de "a" a uma palavra que começa por "a". Sempre que há a junção de dois "a" tal união é acentuada na forma grave (`)
eg Eu dei aquele cão ao meu vizinho
Eu dei àquele cão um bife para o jantar- "Eu dei a aquele cão um biefe para o jantar"
Eu vou à quinta - "Eu vou a a quinta"
As palavras podem ser:
- esdrúxulas - a sílaba tónica é a antepenúltima
- graves - a sílaba tónica é a penúltima
- agudas - a sílaba tónica é a última
As palavras esdrúxulas
são sempre acentuadas na antepenúltima sílaba.
- tópico - palavra esdrúxula (tó + pi + co) - leva acento agudo
- mágoa - palavra esdrúxula (má + go + a) - leva acento agudo
- As palavras esdrúxula NUNCA levam acento grave (o exemplo acima descrito da palavra «àquele» não é uma palavra esdrúxula, apesar de ter acento na antepenúltima sílaba. É uma palavra grave, a sílaba tónica é a penúltima (à -
que - le)
- A maioria das palavras em Português é grave. As palavras graves podem ou não levar acento, não havendo regra para a sua acentuação, sendo mais frequente não terem:
maioria - palavra grave com 4 sílabas (mai + o + ri + a) - sem acento
monarquia - palavra grave com 4 sílabas (mo + nar + qui + a) - sem acento e com a sílaba tónica em «qui».
- As palavras agudas podem ou não ser acentuadas, não havendo novamente regra geral.
Todos os verbos na forma infinitiva são palavras agudas:
tomar
colher
sorrir
compor
-Todas as palavras terminadas "r" e "l" são agudas, excepto quando têm um acento para quebrar:
Tomar (a cidade)
Portugal (o país)
militar
colher
mulher
porvir
calor
Aljezur
normal
hotel
tamboril
caracol
azul
Por exemplo, a frase:
«Em Tomar, consequentemente o fim da monarquia levou a maioria do povo à rua e, em todas as janelas das suas casas, mesmo às do sótão, hastearam-se bandeira verdirubras. Um caracol azul e sozinho estranhamente juntou-se à festa»
será lida desta forma (em que o negrito indica a sílaba tónica e o sublinhado a diferença entre a leitura e a escrita da letra):
«Em T
umár, consequentem
ente o fim da m
unar
kia le
vou a mai
uría do
pôvo à
rúa e, em
tôdas as ja
nélas das
súas
cásas,
mesmo às d
ú sótão, haste
áram-se ban
deiras verdi
rubras. Um cara
cól a
zúl e so
zinh
u istranha
mente jun
tou-se à
fésta»
Que me desculpem os visitantes brasileiros do Cognosco por esta leitura com um sotaque «português»
De
Fiju a 21 de Abril de 2007 às 11:17
Ehhh lá! Realmente o portugês é mesmo complicado! Quando estudava estas coisas (que para mim são horripilantes!) na escola, não era capaz de acertar! Palavra esdrúxula? Grave? Aguda? Sei lá! Fala-se e pronto! LOL
Mas também é verdade às vezes dou cá com cada cambalhota na língua portuguesa!
Nunca fui boa para "línguas". Português é o que se vê, Inglês... Bem... Uma vergonha! Já para não falar em Francês! Mas o falta que faz saber tudo isto! Não sei porquê, mas às tantas devo ter alguma coisa chamada do género, liguofobia! Ah ah ah!
Bom fim de semana! Jokas
Querido Mauro:
A minha passagem hoje é para comunicar que no meu blog foi-lhe concedido o prémio de "Thinking blog". Se há blog que me faça pensar é o Cognosco!
Beijos
Passei pel'A Papoila que me trouxe até aqui e fiquei agradavelmente surpreendida!! Nunca imaginara antes que um "blogger" se dedicasse com tanto pormenor a explicar a Língua Portuguesa. Parabéns! Bom fim de semana.
De
Mauro a 21 de Abril de 2007 às 22:30
Obrigado, «Fiju», «Maria Papoila» e «rendadebilros» pela visita e pelo apreço pelo Cognosco. São estas as palavras e a consideração que dão energia e alento ao Cognosco e a mim.
De
PN a 28 de Abril de 2007 às 22:36
Olá. Então andas a fazer concorrência ao meu blog? Estou a brincar, é preciso que muitos se dediquem a esta tarefa de mostrar como se deve falar e escrever correctamente em português. É bom saber que existem pessoas como eu que gostam de aprender com os erros, tentam melhorar e querem saber sempre mais.
De
Mauro a 29 de Abril de 2007 às 00:01
Sim, «PxN», é fundamental querer aprender com os erros que todos cometemos. Em especial em relação a algo tão precioso como é a nossa língua-mãe. Quantas mais pessoas houver a preocuparem-se com a sua correcção, melhor ela resistirá Às intempéries do tempo.
De O Alcovital a 28 de Junho de 2007 às 16:27
E por falar em atropelos à nossa tuga oralidade, que dizer da estimada pontuação e do desprezo a ela votado por parte da grande maioria dos seus utilizadores? No geral fala-se razoavelmente, escreve-se sofrívelmente e pontua-se terrivelmente! Pouca gente sabe utilizar uma vírgula quanto mais um ponto e vírgula. Da minha parte tento sempre ter um discurso ortograficamente correcto mas, como é óbvio, muitas vezes também tenho dúvidas onde colocar a tal vírgula, os pontinhos e os traços que tornam compreensível qualquer leitura. Sim, dirão que as escolas são fracas ou que os professores não prestam, mas eu discordo, o que acontece é que na realidade a maior parte não tem interesse em escrever bem; quantas vezes já ouvi dizer: "não faz mal, quem ler precebe o que eu escrevi"? Os portugueses não se importam com isso, novelas e big brother são muito mais interessantes (???) É, na verdade, a falta de hábitos de leitura a grande culpada deste desrespeito pela nossa língua. As escolas podem ser fracas, os professores não serem muito bons, mas bem ou mal a matéria é dada. Cada vez menos se oferece um livro a uma criança, playstations e pokemons é que estão a dar. Por este motivo, fico agradecido aos meus pais por me terem incutido hábitos de leitura desde muito cedo o que, tenho a certeza, me influenciou muito positivamente para o resto da minha vida, tanto na escrita como no diálogo. Algo que me parece pertinente destacar é o facto de que hoje em dia a situação piora a olhos vistos -até de olhos fechados ela piora- a introdução da linguagem -se é que se pode chamar de linguagem de tanto que ela é massacrada- do bichinho de estimação do sec XXI, o Telemóvel, este sim o grande carrasco da ortografia. E,pasme-se, já se vêm pessoas a escrever uma carta tal como se dum sms se tratasse... Não adianto mais, espero que seja um tema que o nosso amigo Mauro queira explorar.
De
Mauro a 28 de Junho de 2007 às 18:19
Sem dúvida, «O Alcovital», é perocupante o estado a que é votada a nossa belíssima língua. E, tenho certeza, quando explorares mais um pouco o Cognosco, descobrirás que vários têm sido já os artigos em que abordo os atropelos que quotidianamente são feitos. Os dois que mais apreciei fazer (os artigos, não os atropelos, que esses evito) foram a questão da pronominalização e da dupla negativa. Mas mais houve, não pretendo é roubar-te o gosto da descoberta...
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