Voei, cheguei, bloguei à Pérola do Atlântico, após uma estadia relâmpago no continente. Regresso em espiral porque nunca se regressa exactamente ao mesmo sítio de onde partimos, nunca a partida e a chegada se unem num círculo perfeito. Regressamos mas não exactamente ao mesmo sítio e nunca no mesmo tempo. Forma-se uma espiral... O tempo passou, nós mudámos, as pessoas à nossa volta mudaram. Nunca se regressa ao mesmo local... Mas neste regresso espiralado eis um facto por 3 vezes constatado (das vezes que aterrei no Funchal). Eis uma bela noite de Domingo, o ar tinha algumas ligeiras perturbações mas nada de fazer mover o conteúdo do estômago. Meia noite e o avião aproxima-se do aeroporto do Funchal. O ar está límpido, vêem-se estrelas e as luzes das casas nas encostas. O avião inicia a descida, calma e seguramente. Desce, desce, desce e as rodas tocam gentilmente a pista de aterragem, como que beijando a namorada que se tem há 10 anos.
E eis que metade do avião irrompe em aplausos, como se tivessem sido salvas de um destino fatal. Só visto... Aparentemente é um ritual próprio do homo madeirenses, que aplaude qualquer aterragem na sua ilha. Um pouco como "caramba, mas como é que estes cubanos têm a coragem de cá vir?"
Brinco obviamente. A questão data dos tempos em que o aeroporto da Madeira era substancialmente mais curto e a pista de aterragem terminava directamente num precipício sobre o mar. Todos os aviões que aqui aterravam corriam o substancial risco de tombar nas manápulas sanguinárias de Neptuno (não , não é aquele com penteado punk e estilo "sexualmente alternativo". É mesmo o da barba e do tridente). Como cada aterragem era uma vitória sobre a possibilidade de queda no mar aplaudia-se o piloto que tão corajosamente mantinha firme o seu leme.
Mas a pista foi prolongada e o seu comprimento é equivalente a qualquer outra pista em que já tenha aterrado. O avião pára a sua marcha a uma significativa distância frontal do oceano. E no entanto o ritual persiste...